Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Lição Póstuma


Sentado ao som do violão de Paulinho Nogueira, aquele homem de meia idade olhou o relógio e notou as horas passando. Quando lembrava das boas coisas, elas passavam rápido; quando os pensamentos eram de tristeza, os minutos se tornavam horas. É incrível como a nossa noção de tempo é relativa!

O homem tentava escrever alguma coisa, a sua alma pedia por isso, mas não havia nada de concreto que realmente o fizesse combinar umas palavras em busca de um poema ou um texto qualquer.

– Nada! Como pode? Sempre foi tão fácil escrever. O que incomoda tanto o meu coração que nenhuma inspiração parece estimulá-lo? – falou para si mesmo.

As horas passavam e parecia que aquela seca literária ainda estava muito longe de terminar. Preocupava-se com os prazos do fechamento do jornal, pois precisava logo enviar alguma coisa se tencionava manter a sua coluna semanal.

Em meio a uma inexplicável falta de idéias, resolveu deixar o notebook meio de lado e foi até um pequeno armário de madeira no canto da sala. Abriu uma pequena porta que resmungou, e o fez lembrar que alguns pingos de óleo se faziam necessários naquela velha dobradiça. Colocou de lado uma pequena placa e retirou uma caixa de sapatos bem desgastada, com as pontas amassadas e alguns pedaços de fita crepe segurando onde ela teimava em se desfazer. Sentou-se no chão embaixo de um abajur bem alto, acendeu-o, passou a mão pela tampa retirando uma espessa fuligem e era possível ler “Memórias: alegrias, frustrações e fuga da realidade”, tudo escrito com um pincel atômico azul.

O escritor olhou por alguns instantes para aquela caixa, hesitou. Havia tanto tempo que não a abria... Sentiu um leve calafrio percorrer a sua coluna, como um aviso para manter tudo ali dentro no mais completo esquecimento. Lembrou-se do prazo e que seu editor ficaria furioso se não houvesse algo para publicar. Respirou fundo e abriu a tampa, expondo uma grande quantidade de fotografias de todos os tamanhos.

Não havia uma maneira fácil de fazer aquilo, o único jeito era enfiar a mão ali dentro e começar a colocar para fora todas aquelas imagens de tantas épocas. Na ânsia de que alguma inspiração viesse ao seu encontro, o escritor virou todo o seu conteúdo no chão e o espalhou com as mãos. Todas aquelas fotografias pareciam formar um mosaico multicolorido da sua vida, e à primeira vista era até bonito de se ver. Ao dar uma boa olhada por cima começou a reconhecer alguns rostos do passado – muitos deles, ele fazia questão de esquecer –, mas uma fotografia em especial chamou a sua atenção; uma fotografia tão cheia de recordações que o fizeram abrir um sorriso quase instantâneo.

Lembrou-se daquela tarde de verão, do calor, da brincadeira com a mangueira ao molhar os seus irmãos, e do escorregão que lhe custou um joelho ralado e algumas poucas lágrimas.

– Eram tempos felizes. O que foi que mudou? – perguntou a si mesmo. Talvez mais algumas olhadas o fizessem lembrar o que havia mudado e assim ele poderia voltar a escrever.

Em meio a alguns álbuns, uma foto sua com o uniforme da velha escola. Quando aprendeu a ler e escrever, teve a certeza de que faria isso pelo resto da vida. Amava os livros, as letras, o universo maravilhoso e fantástico que podia criar dentro da sua mente. Em seguida encontrou uma pequena carta com a letra de uma menina; foi a primeira carta de amor que recebera da com quem, anos mais tarde, namorou.

De repente encontrou uma imagem bem conhecida dentre todas as outras: a foto do seu querido avô, mas sentiu um aperto no peito e uma tristeza imensurável. Veio-lhe à mente uma recordação da qual não gostava e que há tanto tempo tentava sufocar: a morte do seu avô. Não foi algo que alguém pudesse dizer: “já era chegada a hora e ele já tinha muita idade, viveu bastante, não houve sofrimento”; se assim fosse, seria bom. No entanto, seu avô foi morto diante dos seus olhos por um assaltante que estava drogado. O pobre coitado morreu porque tremia de medo pela segurança de seu neto e não conseguia tirar o relógio do braço. Um tiro no peito, não houve chance de reação. Agora lembrava onde havia começado a sua descrença na humanidade e em todo e qualquer bom sentimento; tornara-se cético e frio, e sentia por sua condição.

Então as memórias das tantas coisas divertidas que havia feito com o seu avô começaram a voltar: as tardes que passavam sentados na varanda, as pescarias, empinar pipa, subir em árvore. De todos os netos ele era o mais próximo do avô, aquele a quem o velho homem chamava de “parceiro da bagunça”. Então fechou os olhos e teve um sobressalto, algo que retornou de súbito em sua mente sobre aquele dia. Não era nada propriamente sobre o crime em si, mas o diálogo que se deu em seguida, quando ele estava sentado no chão – chorando – com a cabeça do avô em seu colo:

– Não morra vovô, agüenta mais um pouco – dizia ele em prantos.
– Não fique assim meu filho, não precisa chorar. Eu nem mesmo estou sentindo dor. Fico feliz de saber que perto do meu fim o meu melhor amigo está aqui comigo.
– Vovô, por favor, não fala assim...
– Não se preocupe tanto assim comigo. A morte é uma coisa natural da vida e todos nós estamos destinados a ela. Lembre-se sempre das coisas boas que vivemos juntos, celebre a vida! E não esqueça jamais que eu o amo, meu neto, e não poderia escolher pessoa melhor para estar ao meu lado nesse momento.
– Agüenta só mais um pouco vovô, a ajuda está chegando – dizia ele desesperado, mas seu avô já havia perdido os sentidos e faleceu a caminho do hospital. O neto estava ao seu lado, segurando a sua mão, quando finalmente partiu.

Aquelas palavras voltaram com tanta força que ressoaram como se fossem ditas naquele exato instante: “Celebre a vida!”. O escritor não teve dúvidas, levantou-se, sentou-se de frente para o notebook e começou a escrever algo assim: “Gostaria de falar sobre alguém muito especial, com quem eu aprendi que somente o amor pode dar algum significado às nossas vidas...”.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O Violonista

Ele abriu os olhos com a sensação de que alguém o chamava. Sentia-se estranho, a cabeça doía demais e do lado da poltrona havia uma garrafa vazia de um uísque barato.

- A apresentação! - gritou e pulou em único salto. Tudo girava. Estava tonto, ébrio... Fedia a álcool e charuto.

Pegou o seu violão e sentou-se em uma cadeira simples. À sua volta, apenas escuridão com exceção de uma lâmpada iluminando um pequeno pedaço de papel que trazia a seqüência de algumas músicas que ele deveria executar naquela noite.

As cortinas ainda estavam fechadas e o instrumentista sentia-se nauseado. Notou que estava sozinho e pensou: “Que diabos! Onde estão os outros?”. Resolveu adiantar-se. Colocou o violão no colo, ajeitou-se e começou a afiná-lo. Apertava uma tarraxa, soltava outra, batia as cordas desde a sexta até a “mizinha” comparando uma a uma até que, no dedilhar, ele notasse que nada soava estranho ao seu apurado ouvido. Para provar que a afinação estava correta, começou a tocar o “Carinhoso”. Acompanhou com a voz numa suave melodia e cantava melancolicamente: “... E os meus olhos ficam sorrindo e pelas ruas vão te seguindo, mas mesmo assim... Foges de mim...”. Uma lágrima escorria, lembrou-se de Alice. Não mais a vira depois que ela o deixou. A bebida e a vida boêmia que levava haviam afastado a sua doce Alice para sempre. Lembrava tristemente da única mulher que realmente amou: “Longe dos olhos e perto do coração”, balbuciava entre suspiros.

Ele estranhava a demora para começar o espetáculo e sequer conseguia ver a cortina tamanha era a escuridão. As suas platéias eram sempre imensas. Todos queriam ver o seu talento extraordinário ao violão. Ele tocava como poucos! Percebera que não se lembrava como havia saído da poltrona e chegado até ali, achou aquilo muito esquisito.

Assim como muitos artistas, seu temperamento era muito forte! Resolveu que começaria a tocar ali mesmo, sem cortinas abertas e sem os demais músicos. As pessoas certamente ouviriam o seu instrumento e gritariam para que a apresentação começasse sem mais demora. Seguiu o roteiro que havia escrito no tal papel e estava tão absorto no que fazia que nem se deu conta que tudo era silêncio ao seu redor... Um silêncio aterrador e cruel.

Acabou a sua apresentação pessoal e estava feliz. Contentava-se consigo mesmo; o orgulho do violonista era grande demais e sua arrogância o tornava um egoísta irremediável: típico de alguns gênios. No entanto, conforme o porre ia passando, ele percebeu que a poltrona estava logo ao seu lado. Notou que além daquela garrafa havia ainda outras já secas, e onde ele pensava estar a platéia encontrava-se a sombria sala do seu apartamento com dois sofás e uma pequena estante. Ele tocara para ninguém porque ele mesmo se sentia assim, um ninguém.

O violonista recordou que há muito estava sozinho e apenas retardava tais lembranças mantendo-se constantemente bêbado. Seu violão era a única companhia que lhe restara.

Amargurado pelas dores infringidas por ele mesmo, o músico retirou-se do palco da vida para cair no mais completo esquecimento.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A Carta

Aflita, ela fitava a rua e esperava. Olhava para um lado e para o outro, e nada dele chegar.

Ana Clara era uma jovem virtuosa e fora criada para o casamento. Apesar de sequer completar 18 anos, ela já sabia coser roupas com uma habilidade invejável, além de ser uma quituteira de mão cheia. Ah! Seus doces... Comê-los era como ser beijado por anjos. Sempre que cozinhava, lembrava o que dizia a sua mãe: “Se não pode agarrar um marido pelo coração, agarre-o pelo estômago!” – e ria sozinha. Ana Clara não precisava de tais artifícios, ela tinha atributos que a faziam ser notada: longos cabelos castanhos cacheados, profundos e brilhantes olhos verdes, nariz e boca bem feitos, mãozinhas macias e delicadas, era um primor de moça.

O relógio já marcava 10h00 e nada dele chegar. A jovem esperava pelo carteiro que deveria trazer uma carta de seu amado Francisco, mas os minutos passavam e a angústia só aumentava.

Francisco era um rapaz simples e de sorriso cativante. Sua honestidade, senso de justiça e vontade de trabalhar faziam dele uma pessoa querida por todos. Francisco e Ana Clara conheceram-se ainda com 16 anos e casaram-se havia poucos meses, mas o tiro de guerra e a conturbada situação na Europa levaram o jovem aos campos de batalha italianos. Eram aqueles anos de muito temor e milhares de praças brasileiros foram enviados para combater os exércitos de Adolf Hitler.

Havia mais de um mês que Ana não recebia nenhuma mensagem e isso a inquietava – já que Francisco escrevia com certa freqüência –, a cada quinze dias ela lia e relia as cartas que recebia do amado. Eram bálsamos ao seu coração, mas a demora em tê-las fazia com que chorasse por muitas noites.

Impaciente, virou-se de costas para olhar através da porta da sala até uma parede oposta onde se encontrava um grande relógio de pêndulo montado em um móvel de madeira muito escura. Voltou os olhares para a rua e permitiu-se, por um instante, a distração de observar os vasos que enfeitavam a varanda onde estava. Já haviam passado 10 minutos...

Ouviu então o tilintar de uma campanhia de bicicleta e viu o carteiro vindo da esquina. Ela gelou, ficou estática e só conseguia acompanhá-lo com os olhos até que o viu depositando alguma coisa na caixa de correio. Hesitou por um breve momento, mas ao ver a bicicleta partir atravessou as escadas da varanda em um pulo e em largos passos chegou até as correspondências. Procurou convulsivamente por algo de Francisco, olhou mais de uma vez, mas nada encontrou; entristeceu-se. Ao levantar os olhos, observou um velho Ford com placa oficial parando do outro lado da rua. De dentro do carro saiu um homem impecavelmente vestido com uma farda do exército carregando um envelope nas mãos; estendeu o braço em direção a Ana Clara e com a cabeça ainda baixa disse:

– Senhora, eu sinto muito! Seu marido lutou bravamente, salvou muitas vidas. Infelizmente, em um ato de heroísmo, ele perdeu a própria vida – o homem fez um cumprimento meio sem jeito e partiu.

Ana ficou com o envelope nas mãos, atônita. Faltou-lhe o ar e tudo começou a escurecer; desmaiou. Deste dia em diante, Ana Clara jamais foi a mesma e era possível vê-la todas as manhãs na varanda – até o dia de sua morte – , às 10h00, esperando o carteiro trazer notícias do seu amado Francisco.