quarta-feira, 12 de maio de 2010

Crônica de uma Mosca

Era uma quente tarde de verão quando eu e minhas irmãs e irmãos nascemos. Hoje é meu último dia de vida, mas lembro-me como se ainda fosse hoje: o calor era intenso e aquele cheiro de carne podre era maravilhoso! Éramos algumas centenas de pequeninas larvas de mosca-doméstica fartando-nos sobre uma carcaça de peixe esquecida num canto qualquer de uma lixeira.

Digo que é o meu último dia porque nós, moscas domésticas, vivemos apenas de vinte e cinco a trinta dias. Por outro lado, depois de colocados os ovos nós nos tornamos moscas em apenas vinte e quatro horas; depois disso, é só voar. Ah!... Como é bom voar! Nós moscas somos regidas pelo instinto básico de sobrevivência da espécie e o que mais fazemos é nos reproduzir e comer. Eu ainda não conheci nada melhor que essas duas coisas nessa minha curta vida.

Eu vivo a perambular pelas ruas, vez ou outra eu entro em uma casa quando encontro uma janela aberta. Os humanos dizem que nos odeiam, mas se isso é verdade então porque eles nos alimentam? Eu não entendo esses humanos, é muito melhor ser mosca e voar à vontade, andar de cabeça para baixo no teto, incomodar as pessoas com o meu zunido irritante e fazer porcarias por aí.

Eu já perdi muitos irmãos e irmãs vítimas de sapos, lagartixas, aranhas... E o pior de todos: o mata-moscas. Criaram uma coisa especialmente para nos matar, isso é um absurdo! Mas ser mosca tem as suas vantagens: eu faço o que me dá na telha e só preciso seguir os meus instintos básicos. Comida nunca falta e moscas fêmeas para copular também não. Vivemos hoje mais ou menos como os romanos viviam na época dos cesares: comemos, trepamos e morremos aos montes por besteira. Viu só como vocês não são tão diferentes de nós?

A minha curta vida está terminando e percebo que sou a única mosca que algum dia parou para refletir e pensar quão inútil é a minha existência. Se eu ainda tivesse feito algo importante... Mas tudo o que eu fiz foi passar por esta vida como um cometa sem ter realizado nada de produtivo, aliás, como muitos de vocês humanos.

Sinto que os meus minutos estão contados, o meu tempo está chegando ao derradeiro fim e eu gostaria tanto de fazer algo útil... Olha só, um mendigo defecando! Mudei de idéia, acho que antes de morrer eu vou fazer um lanchinho.

domingo, 18 de abril de 2010

Ainda Estou Aqui...

Pessoal, desculpem-me! Ando muito sem tempo pra escrever por causa da faculdade e dos projetos, mas para compensá-los (já que são todos leitores de muito bom gosto hahahahahaha), aqui vai uma música de muito bom gosto de um compositor que eu adoro:



Espero que gostem!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Selo Comentarista Excelente

Meu amigo Rafael Castellar das Neves do blogue http://descemaisuma.blogspot.com/ homenageou o "No Passo do Mundo" com este selo que muito agradeço: http://descemaisuma.blogspot.com/2010/03/selo-comentarista-excelente.html
Este selo tem a finalidade de homenagear os comentaristas que além da assiduidade dos comentários e do esmero com que são feitos, provocam-nos a reflexão, entusiasmo e empolgação para continuidade do nosso trabalho.

Com este espírito homenageio os seguintes blogues:

Poesia e Arte, faz P.arte!: http://retratopranana.blogspot.com/
Impulsiva: http://falaimpulsiva.blogspot.com/
Nando Serra: http://nandoserra.blogspot.com/
Nosso Mundo: http://sobresalvaromundo.blogspot.com/
Reflexões Aleatórias: http://reflexoesdeelisa.blogspot.com/
Simplesmente Eu: http://incognitaparasempre.blogspot.com/

Peço aos comentaristas que receberam o selo que façam referência ao blogue que os homenageou, escolham outros blogues que achem justo homenagear - com o respeito pelos critérios atrás indicados - copiem a imagem do selo e mantenham a lógica do texto aqui apresentado.

A todos os comentaristas que indiquei, espero voltar a contar com os seus sempre agradáveis comentários.

Muito obrigado, pois vocês fazem esse blogue!

domingo, 21 de março de 2010

sexta-feira, 12 de março de 2010

Momentos Difíceis...

Não há como deixar de viver situações difíceis na vida, mas às vezes parece que o mundo inteiro cai na sua cabeça - ou na cabeça da sua família - e por mais esforço que se faça, quase nada parece mudar. Nessas horas ajuda bastante ter uma fé sólida, contar com quem está ao seu lado e ter algo para se desligar do mundo por alguns momentos.

Quem me conhece bem sabe que eu toco flauta-transversal, mas nem vontade de tocá-la eu tive esses dias. Escrever então estava fora de cogitação; porque por mais que isso ajude a colocar pra fora, primeiro é preciso encontrar as palavras para colocar pra fora. Eu precisava de algo que me absorvesse mais.

Voltar para a faculdade veio bem a calhar, porque com tanta coisa para estudar não foi difícil entrar de cabeça na vida acadêmica. Por sorte, eu peguei uma turma com pessoas muito simpáticas e tem sido muito fácil e agradável o relacionamento com todos. Certamente farei grandes amizades - não tenho dúvidas.

Como o humor estava ruim demais (muito ácido) até mesmo para escrever no Lado B, resolvi preocupar-me com outros ácidos: os da química! Então pra quem não sabe o que eu ando fazendo ultimamente, aqui vai uma amostra:

Bom, isso é uma molécula de éter di-butílico (C8H18O) sintetizada à partir de um álcool com cadeia de 4 carbonos (n-butanol). Definitivamente, estudar algo que nos dá prazer ajuda muito quando precisamos nos desligar um pouco dos problemas.
O que eu queria realmente dizer é que, por mais que as coisas pareçam difíceis, sempre surge algo para nos ajudar a ter forças. Reencontrar o caminho é só uma questão de saber andar através da neblina em pequenos passos até que tudo fique claro. Se puder segurar na mão de um(a) amigo(a), não pense duas vezes. Ele(a) certamente irá ajudá-lo(a). E a família é essencial nessas horas (e parente não é família, não necessariamente).
Dê um tempo para a sua cabeça tirando-a momentaneamente da questão que o(a) desgasta. Parece bobagem, mas isso ajuda muito a ver tudo de um outro ângulo. Ocupar a mente com outras coisas facilita na percepção de que para tudo existe uma solução, principalmente se forem questões mais complexas ou muito diferentes dos nossos problemas. Lembre-se que nem sempre aquilo que queremos é o melhor pra gente, e às vezes é preciso aceitar que o nosso máximo parece não fazer diferença nenhuma - mas faz.
Então ajuste a posição da poltrona e aperte os cintos porque a turbulência pode parecer interminável, mas uma hora ela acaba.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Poema de Aurora

Olhou de soslaio e ficou reticente,
Pensou duas vezes e agiu sem demora.
Seus dedos ligeiros escorregaram de lado
E encontraram aconchego nos dedos de Aurora.

Aurora menina, tão pura e inocente,
Sorriu docemente e olhou para o lado.
Sentiu em sua face o rubor ascendente
E a alegria crescente por seu namorado.

Antônio, bom moço, contente ficava
Ao ver que Aurora, o gracejo aceitava.
E Aurora, feliz, não mais sofreria
Por ter em Antônio o amor que queria.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Antes Tarde do Que Nunca.

No dia 1º de janeiro desse ano, o Blog comemorou 2 anos de vida. Demorou um pouco para escrever algo a respeito porque eu levei quase 1 mês pensando sobre tudo o que aconteceu durante esses 2 últimos anos; eu poderia pensar mais 1 ano inteiro e jamais concluiria tudo o que me veio à mente. Certas coisas não se entendem, apenas se aceitam. E a vida segue.

Nesses 2 anos eu me apaixonei e me iludi; eu me alegrei e me entristeci; eu tive algumas vitórias e muitas derrotas. No final das contas, aqui estou eu: inteiro e forte - como deve ser.

A minha cabeça mudou em muitos aspectos e hoje eu sou mais maduro. Esse espaço foi um pouco o meu amigo e a minha fuga nos momentos difíceis, e foi também o espaço para partilhas algumas alegrias.

De qualquer maneira, ele não seria nada sem a presença das pessoas que o acompanharam e ainda acompanham. A todos vocês, o meu muito obrigado!

Hoje, eu quero fazer algo diferente. Eu gostaria que vocês relatassem o que se passou em suas vidas nesses últimos 2 anos. Façamos essa pequena troca e deixem que eu possa "ouví-los" um pouco, seja através de comentários ou pelo e-mail.

Fico aguardando o contato.
Um abraço a todos!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Tempo Passado

Passou, passou...

Não mais voltará!

Foi-se como a fina areia

a escorrer na ampulheta.


O ontem se perdeu,

ficou espalhado em mil pedaços.

Ele não foi esquecido,

foi pouco a pouco suprimido

para disfarçar os nossos pecados.


Findou-se... Está no passado.

Abandonado, tornou-se obsoleto

a fim de ficar no esquecimento, na ignorância.

Ainda permanece nas lembranças e memórias

como sofrimentos imensuráveis

ou felizes brincadeiras de criança.


Pretérito, et finitum.

Virou cinza nas chamas do tempo

deixando esquecido um mar de desgostos.

Já dizia o velho ditado:

rei morto, rei posto!

sábado, 16 de janeiro de 2010

Carta a uma Poeta

(À minha amiga Nayara Oliveira)


Cara amiga poeta, escrevo a ti esta carta

construída entre rimas e versos,

sentado em confortável cadeira de praia,

pensando na vida, um pouco disperso.


Espero que esta possa encontrar-te feliz,

rodeada da família e amados amigos,

desfrutando da alegria e espírito natalinos

entre beijos, abraços e olhares contíguos.


Bem sei que estás no interior

aproveitando a distância da agitada metrópole,

descansando a cabeça neste agradável torpor,

esquecendo as multidões e amontoados de vozes.


Aqui no litoral o calor predomina,

exceto pela fresca brisa que por vezes sopra,

o ar segue denso, morno e sereno,

e as pessoas se animam, sorriem ou choram.


Estou cercado agora pela família,

mas a felicidade ainda não é completa.

Tu sabes bem que nos corações dos poetas

o amor não enraíza ou faz morada discreta.


É certo que agora, minha amiga,

nada haveria de ser diferente

e mesmo assim descontente

felicita-me de uma roubada escapar!


A uma conclusão eu começo a chegar:

que talvez o poeta deva ser um pouco sozinho,

dividido para sempre entre a rosa e os espinhos,

onde a inspiração se faz despertar.


O que seria da poesia sem a sensibilidade

de sentir a dor da melancolia alheia,

o vazio da pungente saudade

ou a aspereza que na vida permeia?


Neste ano que se avizinha, desejo a nós dois o necessário quinhão:

um pouco de tristeza para valorizar a alegria,

um tanto de felicidade para iluminar nossos dias

e um aconchego tranqüilo... Para descansar o coração.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Auto-afirmação

Eu nem sei porque

ainda escrevo sobre o amor.

Talvez seja auto-afirmação:

se eu repetir muitas vezes posso vir a acreditar.

sábado, 2 de janeiro de 2010

O Velho Clichê do Ano Novo

Todo mundo faz uma postagem de ano novo, mas é sempre aquela coisa batida de sempre. Eu tinha dúvidas do que colocar aqui, então eu vi no blog da querida Anônima uma postagem que me fez tomar coragem de escrever o que eu realmente penso.

Desejar feliz ano novo com saúde, paz e um monte de outras coisas é fácil demais e muito lugar comum. Não faça listas - eu não faço - é uma perda de tempo. Estipular algumas metas é até plausível, mas não faça listas de coisas que você sabe que não cumprirá, isso só fará você se sentir um estúpido; e de maneira alguma pense que 2010 será um ano maravilhoso e repleto, apenas, de coisas boas.

Eu desejo a todos um 2010 com o bom e também com o ruim. Eu desejo que você tenha vitórias porque o estímulo é importante para nos manter na luta e com o moral elevado nos momentos difíceis (e acredite, eles virão). Para chegar até o final desse ano sem querer pular na frente doe um trem, é preciso saborear algumas boas vitórias. No entanto, eu também desejo que você tenha fracassos porque eles o ensinarão a se reerguer e a tirar forças de onde nem mesmo você imaginava ter. É o fracasso que vai mantê-lo com os pés no chão e ensinar a humildade,virtude tão necessária para o crescimento humano.

Enfim, eu desejo de coração que o seu 2010 seja equilibrado com sorrisos e lágrimas. Somente assim você poderá chegar ao final dele, olhar para trás, e perceber que se tornou uma pessoa melhor.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Salão Compostela

Isso aconteceu há algum tempo, quando eu resolvi tomar vergonha na cara e procurar um salão para cortar o cabelo - mesmo sabendo que já havia passado da hora de realizar tal procedimento - ainda assim eu fiquei com preguiça de procurar um local para fazê-lo. Como a má vontade era muita, eu resolvi arriscar em um velho salão aqui perto de casa. Quando eu me refiro a velho, eu quero realmente dizer velho... muito velho!

Imaginem só a minha alegria ao notar numa placa, do lado de fora, que o corte custava apenas 7,00 reais! Naquele momento o meu bolso ficou aliviado e eu sorri em pleno contentamento. Resolvi entrar no lugar e sentei em uma cadeira muito antiga para aguardar a minha vez; eu notei duas coisas interessantes logo de início: o senhor sentado na “cadeira do barbeiro” era muito velho e o outro que fazia a barba dele era ainda mais velho. Comecei a olhar ao redor e reparei que, na verdade, tudo naquele salão era velho – a começar pelo nome: Salão Compostela. O chão era velho, os móveis eram velhos, o calendário era muito velho, as revistas eram amarelas... nem preciso dizer que eram todas velhas (notei que algumas delas ainda falavam do Impeachtment do Collor!!!).

Em um primeiro instante eu pensei em sair dali, já que o lugar todo lembrava um mausoléu, mas um detalhe interessante me chamou a atenção: o senhorzinho que estava sentado na cadeira – tendo o seu cabelo cortado e barba sendo feita – estava tão plácido e tranqüilo, parecia-me que ele tinha algum problema de saúde que eu não soube identificar... Notei que o “barbeiro”, logo depois de terminar o serviço, penteou o cabelo daquele senhor quase que num gesto de carinho, como um afago paternal. É uma atenção que não se vê nos dias de hoje.

Foi então que o barbeiro (de muita idade) olhou de uma maneira tão simpática e apontou-me a cadeira (sim, a cadeira era muito velha). Eu não tive como recusar e, analisando melhor, eram apenas 7,00 reais! Maldita mania de ser canguinha!...

Sentei alegremente na cadeira que parecia um tanto desconfortável, mas só até o corpo acostumar-se com aquela peça quadrada e desajeitada. Um longo pano foi colocado sobre o meu corpo e cuidadosamente preso ao meu pescoço junto com uma pequena toalha branca. A pergunta habitual foi feita: “Como vai querer o corte?”. Dei os detalhes de como eu gostaria que o cabelo ficasse: primeiro o som da maquininha aparando a lateral da cabeça; uma borrifada com uma água cheirosa e a seguir o frenético picotar da tesoura no meu cabelo.

A princípio, como ele virou a cadeira para a rua, eu não fazia a menor idéia do q ele estava fazendo. Eu cheguei a temer pelo meu cabelo. Então comecei a reparar em outras coisas a minha volta na tentativa de desviar a atenção para o fato de eu achar que o meu cabelo ficaria uma merda. Eu sentia a tesoura passando no vazio, fazendo um barulho seco de metal contra metal, como se meu cabelo nem mesmo estivesse sendo cortado.

Dei uma olhadela pro lado com o intuito de descobrir o que estava sendo feito na minha cabeça e se aquele senhor não estava de sacanagem comigo – já que ele virava a cadeira de um lado a outro sem nunca deixá-la alinhada com o espelho – imaginei que meu cabelo estivesse uma bosta e ele não quisesse mostrar. A cena que eu presenciei ao olhar pro lado foi no mínimo inusitada: o velhinho estava jogando a dentadura de um lado pro outro dentro da boca e depois a colocava no lugar novamente. Em seguida ele dava aquela chupada de saliva e engolia para, logo em seguida, ficar jogando a dentadura de um lado ao outro da boca novamente. Eu tenho certeza que escutei um arroto num determinado momento.

Aquela cena ainda era engraçada, mas o que eu vi a seguir não tinha graça nenhuma: ele ficou girando a tesoura na mão e aquele negócio passava incrivelmente perto da minha orelha (não, ele não era o Sweeney Todd brasileiro). Foi inevitável sentir um arrepio de pavor ao ver aquele senhorzinho girando a tesoura no ar tão perto da minha cabeça. Eu achei que sairia daquele salão como mais um Van Gogh: como eu faria para usar os meus óculos sem uma orelha? Para o meu completo horror a tesoura escapou da mão dele, mas caiu sobre ele, o que fez com que parece imediatamente com aquela brincadeira de roleta russa.

Enfim a minha cadeira foi alinhada com o espelho e, para a minha surpresa, o corte ficou fantástico! Eu ainda tentei entender como ele cortou o meu cabelo sem nem eu mesmo sentir, mas nada como algumas décadas de experiência para fazer um serviço de primeira.

Trabalho de mestre, emoção garantida e um preço camarada... Não nego, virei cliente assíduo.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Sazonais Desgostos

Eu não insistirei no nosso amor,
não há mais nada a fazer,
apenas separarmos nossa dor
nos pertences que agora se vê.

Leve todos os discos - não os quero -
foram eles que embalaram as nossas vidas,
mas fico com os Pessoas e os Drummonds
que cuidarão das minhas tristezas ressequidas.

Esvazie os armários e poupe-me da dor
de ainda ter em suas roupas a lembrança
de que um dia partilhamos um amor.

Restará ainda o seu perfume nos lençóis
e no meu pente, um fio do seu cabelo;
em minhas memórias os felizes girassóis
e no meu peito o mais profundo desespero.

Quando então o tempo diluir as suas feições
e eu não mais recordar o seu rosto,
é porque a sua imagem foi embora com as monções
em uma vida de sazonais desgostos.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Foto Poema VI

Pimenta 
Fotografia de Dandara Borges http://www.flickr.com/photos/dandara_borges/1510687282

Em tua pequena garrafa, confinada ad aeternum,
permanece curtindo a gosto
junto às tuas irmãs de rubra veste.

Unida às tuas - em prece silenciosa -
desprende a tua essência do fogo, ardilosa,
em fino óleo de oliva.

E pobre daqueles que te tocarem,
pois mereces o menor dos potes:
aquele, reservado aos venenos mais fortes.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Desculpas

É, eu sei que tem 1 mês que não coloco nada por aqui e devo desculpas. Andei ocupado estudando. Nos próximos dias eu colocarei algo novo. Aguardem...

domingo, 15 de novembro de 2009

O Nosso Leito


Lancei-me ao nosso leito
ardendo de desejos, em loucura,
e tu me recebeste insensível com teus beijos
ainda que eu guardasse olhares de ternura.

Tentei tocar o teu corpo,

mas tu estavas tão fria, distante...
e ficava o teu gelo a contrastar com o meu fogo:
havia duas pessoas, apenas um amante.

Inutilmente vibrava no meu peito

um coração que por tantas vezes chorava:
eu sofria por senti-la morta em nosso leito,
eu sofria porque o nosso amor já se apagava.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Lição Póstuma


Sentado ao som do violão de Paulinho Nogueira, aquele homem de meia idade olhou o relógio e notou as horas passando. Quando lembrava das boas coisas, elas passavam rápido; quando os pensamentos eram de tristeza, os minutos se tornavam horas. É incrível como a nossa noção de tempo é relativa!

O homem tentava escrever alguma coisa, a sua alma pedia por isso, mas não havia nada de concreto que realmente o fizesse combinar umas palavras em busca de um poema ou um texto qualquer.

– Nada! Como pode? Sempre foi tão fácil escrever. O que incomoda tanto o meu coração que nenhuma inspiração parece estimulá-lo? – falou para si mesmo.

As horas passavam e parecia que aquela seca literária ainda estava muito longe de terminar. Preocupava-se com os prazos do fechamento do jornal, pois precisava logo enviar alguma coisa se tencionava manter a sua coluna semanal.

Em meio a uma inexplicável falta de idéias, resolveu deixar o notebook meio de lado e foi até um pequeno armário de madeira no canto da sala. Abriu uma pequena porta que resmungou, e o fez lembrar que alguns pingos de óleo se faziam necessários naquela velha dobradiça. Colocou de lado uma pequena placa e retirou uma caixa de sapatos bem desgastada, com as pontas amassadas e alguns pedaços de fita crepe segurando onde ela teimava em se desfazer. Sentou-se no chão embaixo de um abajur bem alto, acendeu-o, passou a mão pela tampa retirando uma espessa fuligem e era possível ler “Memórias: alegrias, frustrações e fuga da realidade”, tudo escrito com um pincel atômico azul.

O escritor olhou por alguns instantes para aquela caixa, hesitou. Havia tanto tempo que não a abria... Sentiu um leve calafrio percorrer a sua coluna, como um aviso para manter tudo ali dentro no mais completo esquecimento. Lembrou-se do prazo e que seu editor ficaria furioso se não houvesse algo para publicar. Respirou fundo e abriu a tampa, expondo uma grande quantidade de fotografias de todos os tamanhos.

Não havia uma maneira fácil de fazer aquilo, o único jeito era enfiar a mão ali dentro e começar a colocar para fora todas aquelas imagens de tantas épocas. Na ânsia de que alguma inspiração viesse ao seu encontro, o escritor virou todo o seu conteúdo no chão e o espalhou com as mãos. Todas aquelas fotografias pareciam formar um mosaico multicolorido da sua vida, e à primeira vista era até bonito de se ver. Ao dar uma boa olhada por cima começou a reconhecer alguns rostos do passado – muitos deles, ele fazia questão de esquecer –, mas uma fotografia em especial chamou a sua atenção; uma fotografia tão cheia de recordações que o fizeram abrir um sorriso quase instantâneo.

Lembrou-se daquela tarde de verão, do calor, da brincadeira com a mangueira ao molhar os seus irmãos, e do escorregão que lhe custou um joelho ralado e algumas poucas lágrimas.

– Eram tempos felizes. O que foi que mudou? – perguntou a si mesmo. Talvez mais algumas olhadas o fizessem lembrar o que havia mudado e assim ele poderia voltar a escrever.

Em meio a alguns álbuns, uma foto sua com o uniforme da velha escola. Quando aprendeu a ler e escrever, teve a certeza de que faria isso pelo resto da vida. Amava os livros, as letras, o universo maravilhoso e fantástico que podia criar dentro da sua mente. Em seguida encontrou uma pequena carta com a letra de uma menina; foi a primeira carta de amor que recebera da com quem, anos mais tarde, namorou.

De repente encontrou uma imagem bem conhecida dentre todas as outras: a foto do seu querido avô, mas sentiu um aperto no peito e uma tristeza imensurável. Veio-lhe à mente uma recordação da qual não gostava e que há tanto tempo tentava sufocar: a morte do seu avô. Não foi algo que alguém pudesse dizer: “já era chegada a hora e ele já tinha muita idade, viveu bastante, não houve sofrimento”; se assim fosse, seria bom. No entanto, seu avô foi morto diante dos seus olhos por um assaltante que estava drogado. O pobre coitado morreu porque tremia de medo pela segurança de seu neto e não conseguia tirar o relógio do braço. Um tiro no peito, não houve chance de reação. Agora lembrava onde havia começado a sua descrença na humanidade e em todo e qualquer bom sentimento; tornara-se cético e frio, e sentia por sua condição.

Então as memórias das tantas coisas divertidas que havia feito com o seu avô começaram a voltar: as tardes que passavam sentados na varanda, as pescarias, empinar pipa, subir em árvore. De todos os netos ele era o mais próximo do avô, aquele a quem o velho homem chamava de “parceiro da bagunça”. Então fechou os olhos e teve um sobressalto, algo que retornou de súbito em sua mente sobre aquele dia. Não era nada propriamente sobre o crime em si, mas o diálogo que se deu em seguida, quando ele estava sentado no chão – chorando – com a cabeça do avô em seu colo:

– Não morra vovô, agüenta mais um pouco – dizia ele em prantos.
– Não fique assim meu filho, não precisa chorar. Eu nem mesmo estou sentindo dor. Fico feliz de saber que perto do meu fim o meu melhor amigo está aqui comigo.
– Vovô, por favor, não fala assim...
– Não se preocupe tanto assim comigo. A morte é uma coisa natural da vida e todos nós estamos destinados a ela. Lembre-se sempre das coisas boas que vivemos juntos, celebre a vida! E não esqueça jamais que eu o amo, meu neto, e não poderia escolher pessoa melhor para estar ao meu lado nesse momento.
– Agüenta só mais um pouco vovô, a ajuda está chegando – dizia ele desesperado, mas seu avô já havia perdido os sentidos e faleceu a caminho do hospital. O neto estava ao seu lado, segurando a sua mão, quando finalmente partiu.

Aquelas palavras voltaram com tanta força que ressoaram como se fossem ditas naquele exato instante: “Celebre a vida!”. O escritor não teve dúvidas, levantou-se, sentou-se de frente para o notebook e começou a escrever algo assim: “Gostaria de falar sobre alguém muito especial, com quem eu aprendi que somente o amor pode dar algum significado às nossas vidas...”.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Demora...

Sei que há quase 1 mês eu não coloco nada por aqui, mas na correria em que estou pouco tempo tem sobrado para escrever. É exatamente por isso que venho aqui pedir desculpas e dizer que nos próximos dias eu devo fazer uma nova postagem.

Espero que entendam a minha situação, pois o trabalho não tem dado trégua.

Agradeço a compreensão de todos...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O que são Poemas?

O poeta não é um conselheiro,
o poeta é um mensageiro!
E poemas são cartas sem destino,
endereçadas a todos e a ninguém.

Chamados de bilhetinhos, mensagens, telegramas...
Poemas são recados de esperança, de tristeza,
o tudo e o nada, o vazio e o cheio, a feiúra e a beleza.
São todos eles impressões digitais:
provas de quem teve a liberdade de pensar, e nada mais.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Eu odeio a Telefônica


Até o momento eu acreditava que os operadores de telemarketing da Telefônica fossem máquinas sem coração, interessados exclusivamente em vender os produtos desta famigerada empresa. Devo confessar que eu me enganei.

Hoje eu recebi uma ligação da tal empresa e a atendente muito simpática perguntou:

– Boa tarde! Eu gostaria de falar com responsável pelo Speedy (internet banda larga da Telefônica).
– Pode falar, eu sou o responsável – respondi a ela.
– Qual o seu nome?
– Eu me chamo Daniel.

Deste ponto em diante eu preciso alertar ao leitor que muitos diálogos foram inventados, mas aconteceram sob um contexto real e a operadora de telemarketing ficou realmente magoada.

– Senhor Daniel – começou a moça – eu sou da Telefônica e gostaria de oferecer ao senhor um serviço inovador.
– Aham... ¬¬
– Senhor Daniel, nós identificamos que a sua empresa utiliza o Speedy Básico de 1Mb de velocidade no valor de R$ 83,90 e ainda paga um provedor no valor de R$ 92,00.
– Não, eu não pago provedor. Meu acesso com vocês é direto – disse eu com muita estranheza.
– Procure a sua conta telefônica de janeiro e verifique porque há o pagamento de provedor – disse a moça educadamente.

Revirei uma estante, puxei um saco plástico – muitos boletos – um monte de tranqueiras caíram no chão e, finalmente, encontrei a tal conta telefônica. Verifiquei a folha de traz e vi o valor de R$ 92,00: Puta que pariu! Não acredito que eles estão me cobrando isso – resmunguei longe do telefone.

– Alô, já estou com a conta telefônica... Estou vendo o tal valor do provedor – disse eu já com muita raiva.
– Então, senhor Daniel, hoje o valor gasto com internet pela sua empresa é de R$ 175,00. O senhor confirma?
– ... nhé ... ¬¬

E com aquela euforia de uma mulher que acabou de comprar um sapato novo que combina com aquela bolsa chiquééééééérrima que ganhou no Natal, ela disse:

– A Telefônica tem um plano de solução para a sua empresa. O senhor pagará R$ 154,00 ao mês, receberá o provedor Terra gratuitamente e ainda forneceremos uma CPU nova com processador Intel, Windows Vista original, anti-virus, e assistência técnica gratuita 24horas, além de repor qualquer peça que venha a ser danificada. O senhor não acha interessante?
– Oh! Supimpa, meu amor...
– Com isso o senhor não gastará mais com troca de peças e assistência técnica, além de diminuir o valor do serviço de internet na sua conta telefônica – finalizou a operadora de telemarketing.
– ...
– ...
– ...
– ...
– Ah! Você quer uma resposta minha?
– Errr... Sim, senhor.
– Tudo bem, qual o “porém”?
– Que “porém”, senhor?
– A Telefônica vai me oferecer tudo isso e não vai querer nada em troca? Só se isso for pegadinha. Fala a verdade. É uma pegadinha do Malandro, né?!
– Não, senhor. Não tem nenhuma pegadinha. A Telefônica oferece tudo isso e o senhor ainda paga menos pelo acesso – respondeu a moça em tom dissimulado que logo eu pude identificar.
– Aham... sei... Da última vez que vocês me ofereceram um serviço similar, eu teria que ficar por, no mínimo, 36 meses preso ao Speedy. Além disso, em breve a sede da empresa vai mudar de lugar e talvez eu não necessite mais dessa linha telefônica. Seria uma irresponsabilidade minha fazer isso agora. E se eu não quiser mais utilizar o Speedy? Talvez eu queira usar outro serviço de internet.
– Mas o serviço pode ficar em qualquer linha telefônica que o senhor tenha, mesmo cancelando essa. O computador será trocado a cada 36 meses sem custo adicional e, no máximo, o senhor paga uma multa equivalente à metade do valor da mensalidade – respondeu a atendente já começando a demonstrar sinais de alteração.
– Então eu tenho que permanecer com vocês por 36 meses e tenho que pagar uma multa por rescisão. Aha! Peguei você!
– Errrr... Errrr... Não, senhor... Vai ficar mais barato... O serviço... Aceeeeeeiiiiiiitaaaaaaaaaaa, pelamooooooorrrrrrrrr de Deus! – tudo bem que ela não disse isso, mas ela queria! Acredite, ela queria implorar para que eu aderisse ao serviço.
– Eu já tenho uma resposta – disse eu convicto.
– E qual é? – perguntou ela, esperançosa.
– N Ã O!!! – foi uma resposta carregada de prazer e desdém, do tipo “Foda-se a sua empresa”.
– Humpf!... – fez ela do outro lado da linha.
– ...
– ...
– É só isso “minha querida”? – perguntei a ela.
– ...
– ...
– Sim, senhor Daniel – respondeu ela secamente antes de desligar na minha cara. Na verdade eu sei que a vontade dela era de dizer: – Você acabou de foder a minha cota de vendas e talvez eu perca o emprego, seu miserável!

Mas a bem da verdade, o que eu queria ter respondido era:

– Pensou que me enganaria sua filha da puta? Pega essa merda de serviço e enfia na bunda!

Ah, a civilidade... Como eu odeio a Telefônica!!!