domingo, 15 de novembro de 2009

O Nosso Leito


Lancei-me ao nosso leito
ardendo de desejos, em loucura,
e tu me recebeste insensível com teus beijos
ainda que eu guardasse olhares de ternura.

Tentei tocar o teu corpo,

mas tu estavas tão fria, distante...
e ficava o teu gelo a contrastar com o meu fogo:
havia duas pessoas, apenas um amante.

Inutilmente vibrava no meu peito

um coração que por tantas vezes chorava:
eu sofria por senti-la morta em nosso leito,
eu sofria porque o nosso amor já se apagava.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Lição Póstuma


Sentado ao som do violão de Paulinho Nogueira, aquele homem de meia idade olhou o relógio e notou as horas passando. Quando lembrava das boas coisas, elas passavam rápido; quando os pensamentos eram de tristeza, os minutos se tornavam horas. É incrível como a nossa noção de tempo é relativa!

O homem tentava escrever alguma coisa, a sua alma pedia por isso, mas não havia nada de concreto que realmente o fizesse combinar umas palavras em busca de um poema ou um texto qualquer.

– Nada! Como pode? Sempre foi tão fácil escrever. O que incomoda tanto o meu coração que nenhuma inspiração parece estimulá-lo? – falou para si mesmo.

As horas passavam e parecia que aquela seca literária ainda estava muito longe de terminar. Preocupava-se com os prazos do fechamento do jornal, pois precisava logo enviar alguma coisa se tencionava manter a sua coluna semanal.

Em meio a uma inexplicável falta de idéias, resolveu deixar o notebook meio de lado e foi até um pequeno armário de madeira no canto da sala. Abriu uma pequena porta que resmungou, e o fez lembrar que alguns pingos de óleo se faziam necessários naquela velha dobradiça. Colocou de lado uma pequena placa e retirou uma caixa de sapatos bem desgastada, com as pontas amassadas e alguns pedaços de fita crepe segurando onde ela teimava em se desfazer. Sentou-se no chão embaixo de um abajur bem alto, acendeu-o, passou a mão pela tampa retirando uma espessa fuligem e era possível ler “Memórias: alegrias, frustrações e fuga da realidade”, tudo escrito com um pincel atômico azul.

O escritor olhou por alguns instantes para aquela caixa, hesitou. Havia tanto tempo que não a abria... Sentiu um leve calafrio percorrer a sua coluna, como um aviso para manter tudo ali dentro no mais completo esquecimento. Lembrou-se do prazo e que seu editor ficaria furioso se não houvesse algo para publicar. Respirou fundo e abriu a tampa, expondo uma grande quantidade de fotografias de todos os tamanhos.

Não havia uma maneira fácil de fazer aquilo, o único jeito era enfiar a mão ali dentro e começar a colocar para fora todas aquelas imagens de tantas épocas. Na ânsia de que alguma inspiração viesse ao seu encontro, o escritor virou todo o seu conteúdo no chão e o espalhou com as mãos. Todas aquelas fotografias pareciam formar um mosaico multicolorido da sua vida, e à primeira vista era até bonito de se ver. Ao dar uma boa olhada por cima começou a reconhecer alguns rostos do passado – muitos deles, ele fazia questão de esquecer –, mas uma fotografia em especial chamou a sua atenção; uma fotografia tão cheia de recordações que o fizeram abrir um sorriso quase instantâneo.

Lembrou-se daquela tarde de verão, do calor, da brincadeira com a mangueira ao molhar os seus irmãos, e do escorregão que lhe custou um joelho ralado e algumas poucas lágrimas.

– Eram tempos felizes. O que foi que mudou? – perguntou a si mesmo. Talvez mais algumas olhadas o fizessem lembrar o que havia mudado e assim ele poderia voltar a escrever.

Em meio a alguns álbuns, uma foto sua com o uniforme da velha escola. Quando aprendeu a ler e escrever, teve a certeza de que faria isso pelo resto da vida. Amava os livros, as letras, o universo maravilhoso e fantástico que podia criar dentro da sua mente. Em seguida encontrou uma pequena carta com a letra de uma menina; foi a primeira carta de amor que recebera da com quem, anos mais tarde, namorou.

De repente encontrou uma imagem bem conhecida dentre todas as outras: a foto do seu querido avô, mas sentiu um aperto no peito e uma tristeza imensurável. Veio-lhe à mente uma recordação da qual não gostava e que há tanto tempo tentava sufocar: a morte do seu avô. Não foi algo que alguém pudesse dizer: “já era chegada a hora e ele já tinha muita idade, viveu bastante, não houve sofrimento”; se assim fosse, seria bom. No entanto, seu avô foi morto diante dos seus olhos por um assaltante que estava drogado. O pobre coitado morreu porque tremia de medo pela segurança de seu neto e não conseguia tirar o relógio do braço. Um tiro no peito, não houve chance de reação. Agora lembrava onde havia começado a sua descrença na humanidade e em todo e qualquer bom sentimento; tornara-se cético e frio, e sentia por sua condição.

Então as memórias das tantas coisas divertidas que havia feito com o seu avô começaram a voltar: as tardes que passavam sentados na varanda, as pescarias, empinar pipa, subir em árvore. De todos os netos ele era o mais próximo do avô, aquele a quem o velho homem chamava de “parceiro da bagunça”. Então fechou os olhos e teve um sobressalto, algo que retornou de súbito em sua mente sobre aquele dia. Não era nada propriamente sobre o crime em si, mas o diálogo que se deu em seguida, quando ele estava sentado no chão – chorando – com a cabeça do avô em seu colo:

– Não morra vovô, agüenta mais um pouco – dizia ele em prantos.
– Não fique assim meu filho, não precisa chorar. Eu nem mesmo estou sentindo dor. Fico feliz de saber que perto do meu fim o meu melhor amigo está aqui comigo.
– Vovô, por favor, não fala assim...
– Não se preocupe tanto assim comigo. A morte é uma coisa natural da vida e todos nós estamos destinados a ela. Lembre-se sempre das coisas boas que vivemos juntos, celebre a vida! E não esqueça jamais que eu o amo, meu neto, e não poderia escolher pessoa melhor para estar ao meu lado nesse momento.
– Agüenta só mais um pouco vovô, a ajuda está chegando – dizia ele desesperado, mas seu avô já havia perdido os sentidos e faleceu a caminho do hospital. O neto estava ao seu lado, segurando a sua mão, quando finalmente partiu.

Aquelas palavras voltaram com tanta força que ressoaram como se fossem ditas naquele exato instante: “Celebre a vida!”. O escritor não teve dúvidas, levantou-se, sentou-se de frente para o notebook e começou a escrever algo assim: “Gostaria de falar sobre alguém muito especial, com quem eu aprendi que somente o amor pode dar algum significado às nossas vidas...”.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Demora...

Sei que há quase 1 mês eu não coloco nada por aqui, mas na correria em que estou pouco tempo tem sobrado para escrever. É exatamente por isso que venho aqui pedir desculpas e dizer que nos próximos dias eu devo fazer uma nova postagem.

Espero que entendam a minha situação, pois o trabalho não tem dado trégua.

Agradeço a compreensão de todos...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O que são Poemas?

O poeta não é um conselheiro,
o poeta é um mensageiro!
E poemas são cartas sem destino,
endereçadas a todos e a ninguém.

Chamados de bilhetinhos, mensagens, telegramas...
Poemas são recados de esperança, de tristeza,
o tudo e o nada, o vazio e o cheio, a feiúra e a beleza.
São todos eles impressões digitais:
provas de quem teve a liberdade de pensar, e nada mais.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Eu odeio a Telefônica


Até o momento eu acreditava que os operadores de telemarketing da Telefônica fossem máquinas sem coração, interessados exclusivamente em vender os produtos desta famigerada empresa. Devo confessar que eu me enganei.

Hoje eu recebi uma ligação da tal empresa e a atendente muito simpática perguntou:

– Boa tarde! Eu gostaria de falar com responsável pelo Speedy (internet banda larga da Telefônica).
– Pode falar, eu sou o responsável – respondi a ela.
– Qual o seu nome?
– Eu me chamo Daniel.

Deste ponto em diante eu preciso alertar ao leitor que muitos diálogos foram inventados, mas aconteceram sob um contexto real e a operadora de telemarketing ficou realmente magoada.

– Senhor Daniel – começou a moça – eu sou da Telefônica e gostaria de oferecer ao senhor um serviço inovador.
– Aham... ¬¬
– Senhor Daniel, nós identificamos que a sua empresa utiliza o Speedy Básico de 1Mb de velocidade no valor de R$ 83,90 e ainda paga um provedor no valor de R$ 92,00.
– Não, eu não pago provedor. Meu acesso com vocês é direto – disse eu com muita estranheza.
– Procure a sua conta telefônica de janeiro e verifique porque há o pagamento de provedor – disse a moça educadamente.

Revirei uma estante, puxei um saco plástico – muitos boletos – um monte de tranqueiras caíram no chão e, finalmente, encontrei a tal conta telefônica. Verifiquei a folha de traz e vi o valor de R$ 92,00: Puta que pariu! Não acredito que eles estão me cobrando isso – resmunguei longe do telefone.

– Alô, já estou com a conta telefônica... Estou vendo o tal valor do provedor – disse eu já com muita raiva.
– Então, senhor Daniel, hoje o valor gasto com internet pela sua empresa é de R$ 175,00. O senhor confirma?
– ... nhé ... ¬¬

E com aquela euforia de uma mulher que acabou de comprar um sapato novo que combina com aquela bolsa chiquééééééérrima que ganhou no Natal, ela disse:

– A Telefônica tem um plano de solução para a sua empresa. O senhor pagará R$ 154,00 ao mês, receberá o provedor Terra gratuitamente e ainda forneceremos uma CPU nova com processador Intel, Windows Vista original, anti-virus, e assistência técnica gratuita 24horas, além de repor qualquer peça que venha a ser danificada. O senhor não acha interessante?
– Oh! Supimpa, meu amor...
– Com isso o senhor não gastará mais com troca de peças e assistência técnica, além de diminuir o valor do serviço de internet na sua conta telefônica – finalizou a operadora de telemarketing.
– ...
– ...
– ...
– ...
– Ah! Você quer uma resposta minha?
– Errr... Sim, senhor.
– Tudo bem, qual o “porém”?
– Que “porém”, senhor?
– A Telefônica vai me oferecer tudo isso e não vai querer nada em troca? Só se isso for pegadinha. Fala a verdade. É uma pegadinha do Malandro, né?!
– Não, senhor. Não tem nenhuma pegadinha. A Telefônica oferece tudo isso e o senhor ainda paga menos pelo acesso – respondeu a moça em tom dissimulado que logo eu pude identificar.
– Aham... sei... Da última vez que vocês me ofereceram um serviço similar, eu teria que ficar por, no mínimo, 36 meses preso ao Speedy. Além disso, em breve a sede da empresa vai mudar de lugar e talvez eu não necessite mais dessa linha telefônica. Seria uma irresponsabilidade minha fazer isso agora. E se eu não quiser mais utilizar o Speedy? Talvez eu queira usar outro serviço de internet.
– Mas o serviço pode ficar em qualquer linha telefônica que o senhor tenha, mesmo cancelando essa. O computador será trocado a cada 36 meses sem custo adicional e, no máximo, o senhor paga uma multa equivalente à metade do valor da mensalidade – respondeu a atendente já começando a demonstrar sinais de alteração.
– Então eu tenho que permanecer com vocês por 36 meses e tenho que pagar uma multa por rescisão. Aha! Peguei você!
– Errrr... Errrr... Não, senhor... Vai ficar mais barato... O serviço... Aceeeeeeiiiiiiitaaaaaaaaaaa, pelamooooooorrrrrrrrr de Deus! – tudo bem que ela não disse isso, mas ela queria! Acredite, ela queria implorar para que eu aderisse ao serviço.
– Eu já tenho uma resposta – disse eu convicto.
– E qual é? – perguntou ela, esperançosa.
– N Ã O!!! – foi uma resposta carregada de prazer e desdém, do tipo “Foda-se a sua empresa”.
– Humpf!... – fez ela do outro lado da linha.
– ...
– ...
– É só isso “minha querida”? – perguntei a ela.
– ...
– ...
– Sim, senhor Daniel – respondeu ela secamente antes de desligar na minha cara. Na verdade eu sei que a vontade dela era de dizer: – Você acabou de foder a minha cota de vendas e talvez eu perca o emprego, seu miserável!

Mas a bem da verdade, o que eu queria ter respondido era:

– Pensou que me enganaria sua filha da puta? Pega essa merda de serviço e enfia na bunda!

Ah, a civilidade... Como eu odeio a Telefônica!!!

domingo, 30 de agosto de 2009

Vida Louca

Se em tuas brejeiras graças
eu me perdi por um instante,
não foi minha a culpa
e tão pouco foi tua.

Foi um rompante desta vida louca
que me fez querer a tua macia boca
juntando as nossas almas em uma alma una.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Nana Banana

O último dia 20 foi um dia especial porque foi o aniversário de uma amiga muito querida. A Nayara, a quem eu chamo carinhosamente de Nana, é como uma irmã caçula; daquelas que os irmãos mais velhos estão sempre atentos para saber se tudo vai bem. Além de companheira de cinema, amante de Los Hermanos, a Nana também escreve (e muito bem!).

O meu blog tem esse nome por causa de uma resposta que eu fiz, há alguns anos, a um poema dela entitulado "O Mundo em Passos". O poema da Nayara e a minha resposta estão aí embaixo, espero que gostem:


O MUNDO EM PASSOS

Eu passo pelo mundo num passo.
O que eu aproveitei dele? Eu não sei.
Eu faço do mundo um sapato
e o que eu vi, nomeei.

Sou andarilho, pescador,
sou rápido coronel.
Contador de história, retirante,
sou a pintura do cordel.

No lado, eu descanso o traço,
das curvas por em que passei.
No rastro, dos pés que engraxo,
eu descalço, rodopiei.

Sem abrigo, sou um sonhador.
Vou buscar nas asas do céu
os pés em que passo cantante
as doutrinas do meu papel.

Nayara Oliveira


NO PASSO DO MUNDO

No passo em que passa no mundo
aproveita dele um pouco de tudo:
do bom e do ruim, da noite e do dia,
pois é do amargo e do doce que a vida se recria.

De sua rica cultura sertaneja
mostra o seu verdeiro coração,
seja do apaixonado Catulo, que faz do amor uma canção,
ou dos Patativas amargurados, versando do prego e do calo.

Nesta poesia consoante ao repente
que o nobre violeiro toca pra gente
deixa navegar a sua alma inquieta
lembrando, outrora, os nordestinos poetas.

Nos laços e traços
das curvas da via a qual passou,
deixa dos seus pés o rastro
dos passos da vida que almejou

Sem abrigo não estará,
mesmo que seja um sonhador.
Terá residência sob um céu de estrelas
e as asas de um uirapurú cantador

Daniel Maia Silveira


Nana, feliz aniversário!!!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Fizemos Amor

Cerramos em beijos os nossos gemidos:
as nossas bocas coladas, os nossos corpos em transe.
As minhas mãos deslizam em tuas curvas, sentidos...
Palavras ressoam fugazez, infames.

O suor extrapola os nossos poros
escorrendo pela tez e tuas reentrâncias,
é ele testemunha de sussurares sonoros,
o combustível a inflamar as nossas chamas.

As feridas que tu me infringes
marcam sulcos na minha carne branda,
são as tuas unhas fincadas em riste
arranhando o meu dorso ao gritar que me amas.

Os teus cabelos que eu outrora afagava
agora sentem com força as minhas mãos em tramas,
enquanto percorro o teu pescoço desnudo, suado e puro,
entre vozes insanas.

Nossos lábios calam murmúrios perdidos
enquanto os olhares se lançam distantes.
Nós somos figuras de algo esquecido,
enredados em abraços, chamados de amantes.

No clímax de nossas almas,
sem palavras a dizer,
trocamos risos de terna calma,
momentos de puro prazer.

Como dois ébrios entorpecidos
ocupados por carinhos incessantes,
encostamo-nos no barranco que é essa cama:
cansados, fatigados e ofegantes...

Olho para ti sem nenhum temor
e permanece no ar um pensamento:
certamente fizemos amor...

domingo, 2 de agosto de 2009

Superficialidade Emocional

Há muito tempo eu tenho pensando em uma coisa que só ultimamente começou a me incomodar, portanto achei que se fazia necessário escrever sobre ela: a superficialidade dos sentimentos.

Eu fico perplexo com a maneira como hoje são tratados os sentimentos, tanto os nossos quanto os dos outros, e isso vem acontecendo com uma freqüência realmente assustadora. Para piorar tudo: a carência emocional humana nestes tempos de frieza incontida.

É fácil perceber que em um mundo aonde o capitalismo chegou ao seu ápice, todas as atitudes se baseiam no consumismo, no modismo, no cinismo e mais uma porção de outros “ismos” que fizeram do homem apenas um coadjuvante do espetáculo e, com ele, todas as suas boas emoções. Os relacionamentos se tornaram descartáveis: hoje se está com uma pessoa, daqui a uma semana já se está com outra fazendo juras de amor eterno. Que amor? Nem mesmo se sente com a profundidade do coração, troca-se de parceiro como se troca de roupa e os sentimentos da outra pessoa ficam negligenciados, pois o imperativo é cultuar o egoísmo.

A carência emocional vem justamente dessa relação de frieza que cria lacunas sentimentais que não podem ser preenchidas. A busca desesperada por algo que a suprima acaba levando a pessoa a cometer erro atrás de erro, tornando-a emocionalmente vulnerável e mentalmente confusa. Vivemos em um mundo de pessoas carentes e confusas! Essa carência surge de qualquer relação mal feita, seja na família que não dá apoio, seja naqueles que deveriam ser amigos de verdade, seja no companheiro(a) que não quer perceber as necessidades do outro(a). Como a maioria se deixa envolver por essa sociedade superficial, as uniões se tornam gélidas e com um único objeto: satisfazer a vontade própria, o prazer.

Um dia desses uma amiga disse sobre o noivo dela (que também é meu amigo): “Eu o amo por várias razões, mas também pela pessoa que ele é”. Esse é o tipo de amor que as pessoas se esquecem de cultivar, amor verdadeiro! Por essas e por outras que eu sei que eles são felizes e que nas dificuldades o sentimento que um tem pelo outro fala mais alto, pois não é superficial e tem raízes profundas. É uma pena que hoje em dia eles sejam a exceção de uma regra que, aliás, é bem cruel.

Se parássemos de olhar um pouco para o nosso próprio umbigo, talvez fossemos capazes de perceber quanta coisa boa temos a ganhar ao tratar a todos com um pouco mais de carinho e respeito; falar olhando nos olhos aquilo que nos aflige e dar a chance para que as outras pessoas não se tornem reféns de nossas armadilhas emocionais. Manter relacionamentos baseados em laços realmente profundos e verdadeiros e, acima de tudo, não fazer ao próximo aquilo que não queremos para nós mesmos, talvez seja um bom começo para recuperar o pouco de humanidade que ainda nos resta e incentivar os demais a fazer o mesmo.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Foto Poema V

Cadeado
Fotografia de Dandara Borges
http://www.flickr.com/photos/dandara_borges/1493178425/

Fechado em duro elo
e formado de aço fundido,
mesmo estando oxidado
nem o tempo te dá por perdido.

Tu guardas no interior
o segredo que a ti liberta
desfazendo as amarras que prendem,
que fecham as portas abertas.

Destruindo os elos trancados
quando a chave em ti é posta,
faz renascer a esperança perdida
- de uma vida outrora esquecida -
encerrada por correntes grossas.

domingo, 19 de julho de 2009

Raízes


Uma amiga me disse esses dias: “Poucas coisas criam raízes no meu coração”. Ela falava do fato de ainda não ter se encontrado, de ainda não fazer algo que realmente a completava, por isso sentia que muitas coisas não a prendiam pelo coração – como deve ser.


Essa frase ficou ressoando na minha cabeça e mal sabe ela o efeito que causou em mim. Comecei a pensar nas coisas que eu faço, porque ambos partilhamos dessa sede de conhecimento, de descobrir cada vez mais. Acredito que isso seja mesmo algo inerente ao ser humano, essa busca pelo saber e essa vontade de aprender. Bom, quase todos os seres humanos – sejamos honestos, existem mais exceções do que a regra por aí.


Fiquei pensando nas coisas que criam raízes no meu coração e percebi que algumas me deixam muito feliz: a música, a poesia, a literatura, as ciências, a farmácia, minha família e meus amigos. Apesar dessas coisas criarem raízes no meu coração, eu noto que eu mesmo não consigo criar raízes em relacionamentos. Mas será que vale à pena?


Ainda não consegui definir se as raízes não se formam porque o terreno onde eu as coloco é estéril, ou se eu mesmo tenho medo que elas se criem e eu fique preso a alguém. Talvez seja um pouco dos dois, mas ultimamente é bem mais o primeiro do que o segundo. Cheguei à conclusão que se não é possível contar com o bom senso e o respeito das pessoas, então ficar sem ninguém é a melhor saída. É como diz aquele ditado: “Antes só do que mal acompanhado”; e devo dizer que hoje em dia é muito fácil estar mal acompanhado.


Onde tudo vai parar eu realmente não sei, e procuro não pensar nisso, mas se nada mudar de uma coisa eu tenho certeza: por muito tempo, quem mais vai conhecer a minha boca será a minha flauta transversal.

sábado, 4 de julho de 2009

A Felicidade é Tão Pouco...

Sei que tardei a escrever aqui novamente. Desculpem a minha ausência, mas há uma razão para tanto: eu saí de casa.

No começo foi tudo meio estranho, a bagunça habitual após a mudança, as roupas sem lugar para ficar. Foi preciso comprar tudo novo: geladeira, fogão, lavadora, guarda-roupas, tv... O lugar é do tamanho ideal – nem grande nem pequeno – e as coisas já estão quase todas arrumadas, com exceção de uns livros e mais umas poucas tranqueiras.

Engraçado é o prazer nas pequenas coisas do cotidiano como cozinhar, lavar roupas, passá-las, limpar a casa. Sentir que você está realmente no seu lar e poder cuidar dele, não tem preço. Dias atrás um rapaz veio montar o armário de cozinha – um móvel pequeno e simples – e depois de montado eu pude tirar todas as coisas que estavam em sacolas de plástico para organizá-las nas gavetas. Guardei as panelas, copos, potes de plástico, mas não sem antes passar um pano em tudo. Quando terminei, eu ficava abrindo e fechando as gavetas e portas olhando se estava tudo certo ou se faltava algo. De repente uma sensação de felicidade se instalou em mim, eu olhei para aquele armário simples, com tudo arrumado, e sorri espontaneamente... Um sorriso repleto de alegria, a alegria de ver que esse cantinho estava ficando com cara de casa.

Outra razão para essa alegria é ver o alívio estampado no rosto do meu pai. Ele ainda demonstra muita melancolia, talvez decepção, mas sei que com o tempo isso vai passar. Ao menos já é possível vê-lo sorrir e isso me enche de alegria. Nessas paredes não há tristeza, não há raiva ou incompreensão. Aqui nada pesa, tudo é leve, e sinto-me verdadeiramente em casa; a nossa casa!

Antes a casa era grande, tinha certo luxo e era muito bem localizada. Hoje ela é simples, como tudo o que há dentro dela, e também confortável (porque o conforto não é só físico, mas muito mais espiritual). De que adiantou o apego material? De que adiantou o orgulho? Hoje, na simplicidade, eu e meu pai recomeçamos a vida e já sentimos a felicidade batendo à nossa porta.

Não é necessário muito para ter um lar feliz, basta compreensão, amor, paciência, humildade e saber perdoar. Dá muito mais trabalho ser infeliz e fazer os outros infelizes do que querer viver bem com quem nos cerca; na verdade não é preciso fazer muito esforço para ser feliz. Como me disse certa vez uma pessoa muito querida: “A felicidade é tão pouco...”

sexta-feira, 19 de junho de 2009

As Pastorinhas

Ah, as pastorinhas!
Quem não quer ser como elas
andando livres pelos campos,
ornamentadas e belas?

Caminham pelas verdes campinas
tocando o seu precioso gado.
Cantarolam todas, tão meninas,
levando à mão um pequeno cajado.

Descansam as suas cabecinhas
do sol que tudo queima,
no pico do meio-dia,
à sombra de uma oliveira.

Ah, as pastorinhas!
Quem não quer ser como elas?
Pulam alegres, cantam cirandas,
são tão formosas e singelas.

Carregam nos bolsos
pedrinhas a contar as ovelhas,
guiando-as morro abaixo, morro acima,
esperando o tocar das sineiras.

Vivem com seus pezinhos no chão
sentindo a grama orvalhada em seus dedos,
guardam em júbilo o coração
que não conhece receio ou medo.

Ah, essas pequenas!
Quem não quer ser como elas?
Voltam pra casa à tardinha,
cravada no cimo do outeiro,
onde dormem as pastorinhas.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Maria

Eu caí dos braços de Maria, tão pesados eram os meus erros, e estendi-me sobre a relva torpe lamentando uma vida de exageros. Maria olhou-me em singeleza na tentativa de sustentar meu corpo vil, e laçou-me em seus braços com firmeza a salvar uma alma já senil: esboçou-me um sorriso de luz da manhã; exalou perfume de dama da noite; chorou lágrimas de cortesã; caiu-se comigo recebendo os açoites.


Desfalecida alma, falecido corpo, maltratado... Maria deitou-se comigo e absolveu os meus pecados.

sábado, 23 de maio de 2009

Foto Poema IV

Cores
Fotografia de Dandara Borges
http://www.flickr.com/photos/dandara_borges/1493174193/

Apontei os meus lápis de cor usando uma faca pequena
e os reservei num canto
(dentro de um cesto simples que não ocupa espaço...).
Sei lá, nunca se sabe quando o amor vai pintar.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Nota Importante do 13 de Maio

Hoje comemora-se a abolição dos escravos pela princesa Isabel, filha de Dom Pedro II. Na verdade a abolição começou antes, mas pra não ficar feio ela assinou a lei, libertou a todos e tornou o 13 de maio como data oficial.

Fato é que, ainda hoje, em lugares remotos deste país, há escravidão - e essa é uma informação do Ministério do Trabalho. A coisa é tão feia que muitos fiscais do trabalho que investigam essas abominações acabam sendo assassinados.

Não vai longe, o "ilustre" deputado federal Beto Mansur (PP-SP) teve, há uns anos atrás, uma propriedade descoberta por fiscais do trabalho e agentes da polícia federal onde era praticada a escravidão humana. O "digníssimo" deu explicações fajutas e escapou ileso sem nem sequer responder a processo.

No país onde existem duas justiças (uma para os ricos e outra para os pobres), o 13 de maio deveria ser uma data muito mais de protesto do que de comemorações - não só para os negros, mas para todos os brasileiros.

Gripe Suína?

Já faz algum tempo que eu não coloco nada aqui no blog, mas acreditem, eu tenho os meus motivos. Eu até poderia enumerar vários: falta de tempo, estudo em excesso, escassez de idéias, estar de saco cheio... tenho até uma cólica renal para acrescentar à lista.

Acho que na verdade foi um pouco de tudo - e cada coisa ao seu momento. Tenho estudado bastante e isso diminui o meu tempo para ter idéias do que escrever: leituras e mais leituras, química, matemática, história, biologia, física; tenho visto de tudo. Daí veio uma porcaria de uma cólica renal que já persiste há quase um mês, mas antes que venham dizer para procurar um médico eu já o fiz e o tratamento está em curso.

Em alguns momentos eu dou uma parada para respirar e tirar o nariz dos livros e apostilas, nessas horas eu costuma dar uma olhada nos noticiários para não ficar tão alheio ao mundo, e não há como negar que o assunto do momento e a tal gripe suína. Aparentemente, depois de todo o alarde, ao que tudo indica ela não é tão temível quanto parece (apesar de se espalhar com uma velocidade absurda). Isso me fez pensar em duas coisas: primeiro, com a rapidez que hoje viajamos pelo mundo, se uma doença realmente mortal conseguir chegar a um grande centro a coisa vai ficar feia (bye bye raça humana); segundo, o ser humano é um bicho engraçado, porque ao mesmo tempo que é alarmista também é relapso. A coisa tava pegando e, em muitos aeroportos brasileiros, os funcionários da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) estavam comendo mosca, ou jogando truco... Só começaram a agir quando já tinha gente contaminada aqui dentro.

Ao final das contas o que mais me preocupa não é a gripe do porco, mas os espíritos de porco que existem por aí. Por isso mesmo, tomem cuidado com espécies como a porca sogra ou o porco cunhado (porque se cunhado fosse bom, não começava com "cu"). Estes espíritos de porco costumam causar grandes estragos nas famílias. Tem também o porco chefe, tem o porco imposto de renda, e tem até um monte de porcos deputados no grande chiqueiro chamado Brasília.

Vocês conhecem algum espírito de porco? Cuidado, essa praga é contagiosa!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Foto Poema III

Detergente
Fotografia de Dandara Borges

http://www.flickr.com/photos/dandara_borges/1509841385/

Surge alegre a espuma fina
como ornamentado colarinho em copos de vidro.
As fragrâncias que são tantas: das maçãs, do mar e dos campos;
penetram em meu nariz e lavo a louça brincando.

Biodegradável e dermatologicamente testado,
tornou-se politicamente correto para toda a natureza.
Mas sua mais importante função,
aquela que ao meu coração mais agrada,
é a de fazer bolinhas de sabão nas mãos das crianças levadas.