quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A Carta

Aflita, ela fitava a rua e esperava. Olhava para um lado e para o outro, e nada dele chegar.

Ana Clara era uma jovem virtuosa e fora criada para o casamento. Apesar de sequer completar 18 anos, ela já sabia coser roupas com uma habilidade invejável, além de ser uma quituteira de mão cheia. Ah! Seus doces... Comê-los era como ser beijado por anjos. Sempre que cozinhava, lembrava o que dizia a sua mãe: “Se não pode agarrar um marido pelo coração, agarre-o pelo estômago!” – e ria sozinha. Ana Clara não precisava de tais artifícios, ela tinha atributos que a faziam ser notada: longos cabelos castanhos cacheados, profundos e brilhantes olhos verdes, nariz e boca bem feitos, mãozinhas macias e delicadas, era um primor de moça.

O relógio já marcava 10h00 e nada dele chegar. A jovem esperava pelo carteiro que deveria trazer uma carta de seu amado Francisco, mas os minutos passavam e a angústia só aumentava.

Francisco era um rapaz simples e de sorriso cativante. Sua honestidade, senso de justiça e vontade de trabalhar faziam dele uma pessoa querida por todos. Francisco e Ana Clara conheceram-se ainda com 16 anos e casaram-se havia poucos meses, mas o tiro de guerra e a conturbada situação na Europa levaram o jovem aos campos de batalha italianos. Eram aqueles anos de muito temor e milhares de praças brasileiros foram enviados para combater os exércitos de Adolf Hitler.

Havia mais de um mês que Ana não recebia nenhuma mensagem e isso a inquietava – já que Francisco escrevia com certa freqüência –, a cada quinze dias ela lia e relia as cartas que recebia do amado. Eram bálsamos ao seu coração, mas a demora em tê-las fazia com que chorasse por muitas noites.

Impaciente, virou-se de costas para olhar através da porta da sala até uma parede oposta onde se encontrava um grande relógio de pêndulo montado em um móvel de madeira muito escura. Voltou os olhares para a rua e permitiu-se, por um instante, a distração de observar os vasos que enfeitavam a varanda onde estava. Já haviam passado 10 minutos...

Ouviu então o tilintar de uma campanhia de bicicleta e viu o carteiro vindo da esquina. Ela gelou, ficou estática e só conseguia acompanhá-lo com os olhos até que o viu depositando alguma coisa na caixa de correio. Hesitou por um breve momento, mas ao ver a bicicleta partir atravessou as escadas da varanda em um pulo e em largos passos chegou até as correspondências. Procurou convulsivamente por algo de Francisco, olhou mais de uma vez, mas nada encontrou; entristeceu-se. Ao levantar os olhos, observou um velho Ford com placa oficial parando do outro lado da rua. De dentro do carro saiu um homem impecavelmente vestido com uma farda do exército carregando um envelope nas mãos; estendeu o braço em direção a Ana Clara e com a cabeça ainda baixa disse:

– Senhora, eu sinto muito! Seu marido lutou bravamente, salvou muitas vidas. Infelizmente, em um ato de heroísmo, ele perdeu a própria vida – o homem fez um cumprimento meio sem jeito e partiu.

Ana ficou com o envelope nas mãos, atônita. Faltou-lhe o ar e tudo começou a escurecer; desmaiou. Deste dia em diante, Ana Clara jamais foi a mesma e era possível vê-la todas as manhãs na varanda – até o dia de sua morte – , às 10h00, esperando o carteiro trazer notícias do seu amado Francisco.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Sorriso de Mil Marias

Pedi à Lua que velasse o teu sono
nas noites em que solitária estiveste,
e as estrelas seriam a colcha celeste
revestindo o teu corpo nu.

A luz borrifada, que então surgiria,
dispersaria o breu e descortinaria as tuas curvas
que em meio à penumbra
seriam a escultura pura do prazer e da paixão.

Sonharia com os teus braços,
refúgio de um amor que alucina;
e nos teus seios dormiria, e acordaria:
tu serias o rincão de uma alma perdida.

E ainda que aí eu não estivesse,
sentirias uma morna brisa tocando a tua carne macia
como se os meus beijos mais quentes
a cobrissem da mais pura alegria.
E tu sorririas... Um doce sorriso de mil Marias.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Cor de Canela

Eu a vi caminhando
com esse seu jeito faceiro,
um tanto fugaz, corriqueiro,
chamando a atenção ao gingar.

Foi essa sua cor de canela
que me fez nota-la
e perceber o intrigante roçar
das roliças coxas que eu desejava.

Sua blusinha leve e marcada
a delinear seus túmidos seios,
combinavam com a saia curta e colada
que incitava os meus devaneios

Desfilou assim, tão depressa,
e nem arriscou lançar-me um olhar,
mas você é apenas mais uma dessas
entre tantas outras que eu já vi passar...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Lembranças Persistentes



Ainda resta alguma lembrança daquela que se foi; sobraram as marcas mais fortes que alguém poderia sentir no peito. Eu ainda me recordo como o seu cabelo muito liso desarranjava ao vento e como logo se ajeitava na primeira passada de mão... Era um cabelo agradável de afagar.

Desde aí vem a torrente de lembranças ruins, uma vontade de nada querer e um desejo de nada sentir. Que saudade daqueles tempos em que eu não precisava da companhia feminina! A minha mente vagava por outras pradarias e a inocência juvenil fazia com que eu visse o mundo apenas como um desafio a ser superado.

Noto que o problema é acostumar-se a ter alguém por perto, porque enquanto isso não acontece, é fácil lidar com a solidão. Depois que se acostuma à companhia é difícil viver só, e o tempo que se leva para tal readaptação é gigantesco.

As pessoas escolhem maneiras diferentes de tocar a própria vida: algumas decidem se juntar, enquanto outras começam a ser seduzidas pelo caminho solitário. É como alguém que toca um instrumento e de repente descobre que gosta mais ou se adapta melhor a outro. Não é uma questão de ser volúvel, mas de adequar-se melhor às próprias necessidades ou condições que a vida oferece; e ao tentar fazer isso, tenta-se arrancar alguma felicidade de onde – aparentemente – ela não mais existe. Para mim, felicidade é sinônimo dessa paz e de tranqüilidade de espírito.

Não desejo muito, apenas a simplicidade. Será que é pedir demais?

Ao final, o que nos resta é tentar viver com as memórias miseráveis que sobraram, ou fazer algo tão incrivelmente diferente que os alicerces de nossas almas tremeriam e teríamos, quem sabe, um pouco de paz.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Desabafo

Foi assim, num rompante de agonia,
vislumbrando – distante no meu canto –
ainda sem poder derramar pranto,
que foste tu miséria e alma fria.

Abri o peito em descompasso
expondo um sentimento à revelia,
permiti à alma o embaraço
de mancha-la com a tua grosseria.

Mantive-me intacto, imponente,
apesar do risco e da ousadia,
e sem esvanecer – e tão somente –
cultivo o futuro dos meus dias.

Se então arrepender-te desta tua aleivosia
e jogar-te nos meus braços em busca da alegria,
saiba que estes braços não estarão mais estendidos
e restará apenas o vazio... reservado aos teus gemidos.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Retorno às origens

Apesar do novo sítio, não há como negar que me bateu um certo saudosismo deste blog. Em decorrência disso, resolvi postar meu material nos dois lugares. Retornarei a escrever aqui com o poema logo abaixo, espero que gostem.

Abraço a todos

Eu quis tocar os teus dedos...

Eu quis tocar os teus dedos
enquanto a tua mão
repousava sobre a mesa,
mas recolhi-me com tristeza
na inocente certeza
de que rejeitarias meu agrado.
Eu queria apenas perceber
o teu calor e a tua pele
tocando de leve a minha,
e apesar da fugaz sensação
– e o temor que se avizinha –
eu laçaria os dedos meus
nos dedos teus,
da tua mão de menininha.
Não haveriam sobressaltos,
nem sustos ou desgostos,
seríamos pegos de assalto
em olhares outrora supostos.
Primeiro eu teria as tuas mãos
– objeto do meu desejo –
para então preparar o terreno
na doce espera dos teus beijos.

sábado, 12 de julho de 2008

Os Fuentes - Parte XX (FINAL)

Na manhã seguinte houve um funeral com caixão lacrado. Uma missa foi celebrada e o velório foi realizado com uma quantidade ínfima de participantes. Eram apenas dez pessoas no total, sendo que seis delas tiveram que ser contratadas para carregar o corpo.

– Hoje eu vejo como o Henrique era malquisto. Comentou Juan.
– Ele pisou em muitas pessoas, destruiu muitas vidas. É um final triste para quem semeou tristeza. Respondeu Rosa.
– No entanto, você sempre permaneceu ao lado dele. Ficou até o último instante. Replicou Juan.
– Sim, eu fiquei por amor aos meninos. Prometi à mãe deles que eu cuidaria dos dois. Finalizou Rosa.

O céu estava cinzento e uma fina garoa caía sobre a madeira escura do caixão. Não houve lágrimas, apenas silêncio.

Dez meses se passaram e Cristóban estava recuperado, assim como Ernesto. O caçula nutria uma admiração muito grande pelo irmão mais velho e passou a ouvir seus conselhos: voltou a estudar e agora fazia planos de cursar uma faculdade e construir uma carreira. Ernesto se apaixonou pelo trabalho de seu tio Juan e logo começou a trabalhar com ele. Cristóban tinha muitos problemas para resolver, coisas que seu pai deixou por fazer. Não havia mais fortuna, só o que restara foi a grande casa e dois carros. Rosa continuava ao lado deles como uma mãe dedicada.

Cristóban ficou parado no jardim diante da grande residência. Apenas observava - absorto em seus pensamentos. Seu rosto tinha um ar de aflição, mas seus olhos tinham um que de esperança.

Sofie chegou bem devagar por trás de Cristóban e lhe roubou um beijo. Eles se olharam e sorriram; os dois se abraçaram.

– Pensando em quê, meu amor? Perguntou Sofie.
– Estou pensando em aceitar a proposta do meu tio Juan e transformar essa mansão em uma clínica que pudesse receber pessoas de vários lugares do país. Ele sabe que esse sempre foi o meu sonho, e ele sempre me apoiou.
– Então, porque o ar de preocupação no seu rosto? Indagou Sofie.
– Não sei se eu darei conta de tocar um projeto como esse. E essa casa tem tantas lembranças tristes... Respondeu Cristóban um tanto desanimado.
– Então nós faremos lembranças felizes e encheremos essa casa com a alegria das pessoas que aqui terão atenção e cuidados. Faremos dessa casa um porto seguro para quem procura o alívio de suas dores. Eu estarei ao seu lado em todos os momentos. Disse Sofie com voz suave.

Cristóban fitou Sofie nos olhos, deu um sorriso e a abraçou. Sentiu a sua alma se revigorar com a esperança de que as coisas mudariam. Estava novamente em casa com as pessoas a que tanto amava.

– O seu amor me completa, Sofie. Agora eu sinto de verdade que tudo pode ser diferente.
– E será, Cristóban. Eu tenho certeza que seremos muito felizes.


FIM

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Os Fuentes - Parte XIX

No hospital a ambulância já era esperada por uma equipe médica e uma sala de cirurgia estava pronta para receber Cristóban. A chegada ao hospital foi rápida, mas os paramédicos estavam tendo muita dificuldade para manter os sinais vitais estáveis. A hemorragia era grande e Cristóban teve uma parada a caminho do hospital.

Tumulto, e a maca com Cristóban atravessou a emergência como um foguete. Paramédicos avisando sobre os procedimentos usados, pressão arterial, respiração, pulsação. Dr. Roberto ouvia tudo com muita atenção enquanto corriam para o centro cirúrgico. Cristóban abriu os olhos por um instante – num breve momento de consciência –, sentiu uma dor aguda, viu vultos de rostos ao seu redor, luzes, e novamente desmaiou. Portas se abrindo. Correria. Gritos; e uma equipe médica tentando salvar uma vida.

A operação já chegava há quase seis horas, muitas bolsas de sangue e plasma foram usadas. Cirurgiões se revezavam na mesa para evitar a fadiga e ter o melhor resultado. O esforço de todos era evidente.

Na sala de espera estavam o tio Juan e Sofie. Rosa estava em repouso, sedada. Os acontecimentos daquele dia haviam deixado a governanta muito abalada. Todos estavam aflitos, sem notícias. Sofie chorava em silêncio.

– Fique calma, minha filha. O meu sobrinho é forte e vai sair dessa. Disse Juan à Sofie.
– Não é justo, logo agora que as coisas entre nós dois estavam se acertando. Eu passei tanto tempo sonhando e esperando pelo Cristóban, e agora ele está partindo e eu não posso fazer nada. Falou Sofie entre soluços.
– Acalme-se, moça. Vocês dois ainda terão muitas histórias para viver. O Cristóban não vai entregar os pontos, ele é um lutador! Sentenciou Juan.

Depois de mais de seis horas e meia de cirurgia, Cristóban foi levado para uma sala de pós-operatório e o Dr. Roberto dirigiu-se até a sala de espera para dar notícias:

– A cirurgia foi muito bem! Conseguimos parar a hemorragia, remover o projétil e arrumar a bagunça. Os sinais vitais dele estão estáveis e isso é ótimo! O Cristóban é forte e jovem, acreditamos que ele vá reagir bem. Toda a equipe está otimista.

Juan deu um suspiro aliviado e Sofie abraçou o Dr. Roberto, agradecendo. Imediatamente foram a um quarto de repouso onde estava Rosa. Acordaram a governanta delicadamente e deram a boa notícia. Rosa sentiu que havia tirado um peso enorme de seu peito, mas ainda ficava imaginando como daria a notícia do suicídio do Dr. Henrique aos meninos.

– Uma coisa de cada vez. Hoje celebramos a vida, amanhã pensaremos na morte. Disse a governanta.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Os Fuentes - Parte XVIII

Poucos minutos após o estrondo, Rosa chegou ofegante até a porta do escritório e a cena que presenciou a fez gelar de pavor. Notou que Cristóban estava caído com a mão sobre o abdome e a sua camisa estava toda manchada de sangue. Tentou gritar, mas a voz não saía. Olhou para o lado e viu Henrique atônito, perdido, com um revólver na mão.

– O que o senhor fez? Perguntou Rosa em um balbuciar meio espremido.

Rosa correu para o telefone e ligou para o serviço de emergência. Em seguida, e ainda tremendo, arrancou um pedaço da cortina e a segurou sobre o ferimento de Cristóban na tentativa de estancar o sangue. Olhava para o Dr. Henrique sem entender direito o que havia acontecido e tudo o que via era um homem confuso, falando sozinho e completamente alterado. Rosa olhou fixamente para ele e perguntou:

– Por que fez isso?
– Isso? O quê? Respondeu Henrique um tanto confuso.
– Não viu o que o senhor fez? Atirou no próprio filho! Gritou Rosa aos prantos.

Henrique olhou para o corpo de Cristóban esticado sobre um tapete e tomou um susto. Olhou para a sua mão e viu que empunhava um revólver. Sentia o forte cheiro de pólvora. Tentou raciocinar, por um instante parecia ter recobrado a lucidez e falou baixinho:

– Meu Deus! Eu matei meu filho...

O desespero tomou conta dele. Percebeu o que havia feito, mas não sabia porque e nem como.

O socorro chegou rapidamente na residência e os paramédicos começaram a realizar as primeiras manobras na tentativa de estabilizar o quadro de Cristóban. Rapidamente ele foi levado para a ambulância enquanto Rosa, ainda perturbada, deixou Henrique sozinho em seu escritório para avisar ao Dr. Roberto sobre a tragédia. Imediatamente o médico da família preparou-se para receber o jovem baleado.

Assim que desligou o telefone, Rosa ouviu um segundo estampido seco vindo do escritório. Correu o quanto pôde – considerando que o seu nervosismo a fazia esbarrar nos móveis e tapetes pelo caminho – caiu uma vez, e outra antes de chegar; assim que atravessou a grande porta viu uma mancha de sangue na parede, uma poça no chão e um corpo estendido. Henrique Fuentes acabara de tirar a própria vida: um disparo, nem mais um suspiro.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Boa Notícia!!!

Eu sei que tem gente esperando pelo fim do conto "Os Fuentes" e acredito que alguns até já desistiram achando que não terminarei a história.

Na verdade só agora eu estou me sentindo um pouco mais animado para finalizar este conto, então aguardem que nos próximos dias uma nova parte surgirá. Até lá, gostaria de comunicar que estou com um site cujo endereço é: http://www.danielmaiasilveira.com

Depois de terminar o conto dos Fuentes aqui, passarei a postar apenas no site (onde há um blog bem legal).

Desculpem a demora, mas às vezes a vida nos obriga a fazer outras coisas e temos que deixar um pouco de lado aquilo que gostamos de fazer.

Um agrande abraço a todos...

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Os Fuentes - Parte XVII

Ao entrar no escritório, Cristóban notou o lugar muito escuro. A cortina deixava algumas pequenas frestas por onde a luminosidade do sol entrava timidamente.

– O filho à casa retorna... Disse uma voz no fundo do escritório com tom sarcástico. Cristóban procurava, mas tudo o que via era sombras. Uma luz fraca de abajur foi acesa e numa poltrona estava o seu pai, Henrique Fuentes.
– Veio tripudiar sobre a minha carcaça, seu infeliz? Falou Henrique com muita raiva.
– Não, pai... Eu jamais ficaria feliz sabendo que o senhor está doente. Respondeu Cristóban um pouco aturdido com a imagem do trapo de homem que estava sentado à sua frente. Em outros tempos, Henrique fora um homem forte e bem apessoado. Chamava a atenção de longe e vestia-se com uma elegância de dar inveja. Agora, tudo o que restava era a lembrança do que um dia ele foi; não passava de um homem doente, fraco e com feições de morte.
– Sei... E como você sabe que eu estou doente? Perguntou Henrique.
– A Rosa me contou, mas não fique bravo. Ela fez isso porque se preocupa com o senhor.
– Não brigarei com a Rosa. Ela é a única pessoa que me ajuda, e fazer isso seria como dar um tiro no próprio pé. Respondeu Henrique um tanto contrariado.
– Obrigado, pai... E antes que pudesse terminar a frase, Henrique deu uma risada forçada, ácida. Olhou para Cristóban e falou rispidamente:
– Pai?! Eu tenho apenas um filho. Eu deixei de ser o seu pai no dia em que me traiu!
– Eu jamais o traí. Chama de traição usar uma pequena quantidade de dinheiro apenas para ajudar a manter uma clínica popular? Todos trabalhavam de graça, o galpão foi cedido de graça, o dinheiro servia apenas para comprar medicamentos e material de consumo médico. Eu ajudava as pessoas...
– Cale-se! Você usou o meu dinheiro com aquela gente imunda. Praguejou Henrique.

Cristóban olhava atônito para o seu pai e tentava entender como um homem, que naquela época era um dos mais ricos das Américas, poderia renegar o que para ele eram apenas migalhas. Sim, migalhas. A fortuna dos Fuentes era imensa e o que Cristóban desviava para manter a clínica não significava nada para o monumental patrimônio que o seu pai sustentava. Isso também fez Cristóban pensar em como o seu pai pode perder tudo em tão pouco tempo.

Ambos se olhavam: Cristóban, estarrecido; Henrique, furioso. O jovem médico sentia-se nauseado e se perguntava como poderia ser filho de um sujeito como aquele, um verdadeiro monstro. Henrique, por sua vez, fuzilava o filho com olhar de ódio.

– Eu vim até aqui para resolver as coisas entre a gente. Disse Cristóban tentando manter a calma.
– Seu desgraçado, você roubou o meu dinheiro! Disse Henrique transtornado.
– Pai, pelo amor de Deus!... Foi há muito tempo e eu fiz isso para ajudar pessoas que o senhor havia prejudicado.
– Cale a boca! Eles mereceram... Era o meu dinheiro! Por sua culpa eu estou sem nada, a culpa é sua! Esbravejava Henrique.
– Minha culpa? O senhor está fora de si. Estou longe por mais de dez anos, como pode ser minha culpa? Perguntava Cristóban indignado.
– Sim, foi sua culpa! Você me fez perder tudo, mas agora eu vou acertar as coisas. Estaremos quites de uma vez por todas.
– Pai, o senhor não está pensando direito. O senhor precisa de um psiquiatra, está perturbado.
– Perturbado está você. Disse Henrique enquanto puxava, do canto da poltrona, um revolver. Apontou para Cristóban e ouviu-se um estampido seco. Cristóban sentiu um calor intenso no abdome e em seguida um líquido quente lhe escorria. Colocou a mão sobre a barriga e viu que era sangue. Começou a perder os sentidos e desmaiou.

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Pessoal, desculpe a demora em postar a continuação do conto. Na semana passada começaram as minhas aulas, então vou demorar um pouco mais para terminar a saga dos Fuentes - espero que compreendam. Em breve eu finalizarei o conto.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Os Fuentes - Parte XVI

Cristóban encontrou Rosa na recepção do hospital e os dois se abraçaram, um longo e emocionado abraço.

– Ele está bem, Cristóban! Eu pensei que nós o perderíamos...
– Não, Dinda. O Ernesto é forte e vai se recuperar em breve.

Os dois saíram juntos do hospital e Cristóban decidiu que já era hora de encontrar-se com o seu pai e tentar resolver de uma vez o problema entre eles. Iriam até a casa dos Fuentes e ele não adiaria mais aquela conversa.

– Dinda, hoje eu vou encontrar com o meu pai. Essa conversar não pode mais esperar.
– Vá com calma, meu filho. Não se esqueça que o seu pai é um homem doente e devo avisá-lo que todos esses problemas o deixaram um pouco desequilibrado emocionalmente.
– Tudo bem, Dinda. Eu farei de tudo para não brigarmos, mas dessa vez eu não fugirei.
– E nem deve. Eu sei que você quer voltar a conviver com o seu irmão, mas percebi a sua cara de felicidade ao chegar no hospital. Aposto que o nome dessa alegria toda é Sofie.

Cristóban ficou rubro imediatamente, ele sentia que as suas bochechas pegavam fogo de tanta vergonha, e disse:

– Eu não deveria ter fugido por muitos motivos e um deles, certamente, é a Sofie. É verdade, eu estou feliz! E riu, agora mais descontraído.
– Fico feliz por você, meu filho. Finalmente você conseguiu perceber que existem razões mais do que suficiente pra ficar aqui.

Os dois seguiram para carro e voltaram para a casa dos Fuentes. No caminho, Cristóban comentou com Rosa os seus planos para tirar Ernesto dos vícios do álcool e da cocaína. Ele conhecia uma excelente clínica de recuperação, mas precisaria da ajuda do seu tio Juan.

Ao chegar na casa, Cristóban estacionou o carro em frente a uma imensa fonte centralizada nos jardins da residência. Atravessaram uma pequena trilha feita com lajotas e entraram pela porta dos fundos.

– Você está pronto para falar com o seu pai? Perguntou Rosa.
– Só saberei quando nos encontrarmos. Onde ele está?
– Ele está no escritório dele. Essa manhã ele comeu e depois foi ler o jornal no escritório. Disse que tentaria fazer alguns contatos para reaver a fortuna, mas ninguém o atende. Às vezes ele acha que está a falar com alguém ao telefone, mas não há ninguém do outro lado da linha. Comentou Rosa um tanto angustiada.
– Isso não é nada bom, Dinda. O HIV pode provocar problemas mentais em alguns casos e se ele ainda ficou desequilibrado depois do problema financeiro...
– Você acha que esse desequilíbrio mental não é só por conta da fortuna que ele perdeu? Perguntou Rosa.
– Eu não sei, Dinda. Mas é bem provável que seja as duas coisas agindo ao mesmo tempo. Só é possível saber isso com exames mais detalhados. Respondeu Cristóban.

Os dois se olharam. Rosa foi cuidar das tarefas da casa enquanto Cristóban atravessou um longo e largo corredor até chegar num grande salão de festas. Do lado oposto havia um pequeno hall e um corredor muito curto que terminava no escritório do seu pai. Ele atravessou todo o salão, o hall e o corredor com passos decididos e nervosos. Parou em frente a uma imensa porta de madeira; colocou a mão na maçaneta e hesitou por alguns segundos, mas respirou fundo e a girou.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Os Fuentes - Parte XV

No começo da noite Cristóban chegou ao prédio onde Sofie morava. Subiu e ao sair do elevador a encontrou esperando por ele na porta do apartamento. Ela estava linda, com os cabelos soltos e o aguardando com um sorriso iluminado. Cristóban chegou mais perto e antes que alcançasse a porta ela foi em sua direção e o recebeu com um abraço seguido de um beijo demorado, que o deixou sem fôlego. Eles se olharam ternamente e seguiram para dentro do apartamento. Sofie preparou um jantar romântico, dançaram, conversaram e se amaram a noite inteira. Há tempos eles esperavam por aquele momento que foi mágico para ambos – era tudo o que eles desejavam.

No dia seguinte Cristóban serviu o café de Sofie na cama e em seguida foi direto até a casa de seu pai para buscar Rosa. Logo pela manhã ele recebeu um telefonema entusiasmado da governanta que não quis dar maiores detalhes. Já no carro, a caminho do hospital, Rosa disse emocionada:

– O Dr. Roberto ligou e disse que seu irmão havia aberto os olhos e chamou por você.
– Ele chamou por mim? Mas ele nem sabe que eu estou aqui...
– É verdade, ele não sabe. Mas era um habitual o Ernesto chamar por você à noite, enquanto dormia. Comentou Rosa.
– Por que nunca me disse isso, Dinda?
– Eu disse certa vez, mas você estava tão transtornado que nem prestou atenção. Respondeu a governanta.

Cristóban sentiu-se triste porque ele tinha um imenso amor pelo irmão, então lembrou da sua conversa com o tio Juan sobre o fato de ter deixado a sua vida de lado por causa dos problemas com o seu pai. Por um momento o arrependimento doeu fundo no seu coração, mas sabia que ainda era possível recuperar a sua vida e o relacionamento com o seu irmão.

Quando chegaram ao hospital, o Dr. Roberto foi recebê-los imediatamente. Percebia-se claramente que estava otimista, ele mal conseguia disfarçar.

– Acredito que a senhora Rosa tenha dado a você a notícia que mais aguardávamos. Disse Roberto a Cristóban.
– Sim, ela me contou. Será que podemos ver o meu irmão? Perguntou Cristóban ansioso.
– Claro, ele já foi levado para um quarto particular. Está respondendo muito bem aos medicamentos, mas ainda não consegue movimentar os membros inferiores.
– Vai levar tempo, mas eu acredito que em breve ele vai voltar a andar. Disse Rosa, cheia de fé e esperança.

Os três seguiram para o quarto e Rosa, logo que a porta do quarto se abriu, disparou em direção a Ernesto. Abraçou, beijou, acariciou o seu rosto e chorou muito; ela se sentia aliviada, como se um peso fosse tirado das suas costas.

– Seu moleque! Você nos deu um susto. Nunca mais faça isso, meu filho... Você me deixou com o coração agoniado. Disse Rosa a Ernesto enquanto chorava copiosamente.
– Desculpe, Dinda. Eu sei que passei dos limites. Falou Ernesto com a voz ainda muito fraca.

Ernesto olhou por cima do ombro de Rosa e viu o irmão parado ao lado do Dr. Roberto. Ele sorriu, não conseguia acreditar que o irmão estava ali, o irmão de quem sentia tanta falta. Cristóban sentou perto da cama e segurou a mão de Ernesto e não pôde evitar as lágrimas.

– Oi meleca! Disse Ernesto enquanto sorria.
– Oi seboso! Respondeu Cristóban entre lágrimas.
– Ainda se lembra dos nossos apelidos?
– Eu jamais esqueci, meu irmão. Comentou Cristóban com a voz embargada.
– Eu sonhei com você Cristóban, sonhei que você veio me ajudar e que seríamos uma família novamente. Falou Ernesto enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas.
– Não era um sonho e eu realmente voltei para ajudar, mas jamais deixamos de ser uma família. Eu prometo que não me afastarei novamente e seremos como antes: o meleca e o seboso.
– Cristóban, eu notei que não consigo mexer os meus pés. Tenho medo de nunca mais voltar a andar...

Diante da agonia do irmão, Cristóban procurou explicar a situação de maneira simples dizendo que não havia nenhum trauma sério e que com o tempo ele voltaria a andar. Disse também que ficaria ao lado dele o tempo todo durante a fisioterapia e fariam exercícios juntos para a recuperação ser mais rápida.

Os dois irmãos se abraçaram e Cristóban sentia que agora faltava pouco para que as coisas ficassem em ordem. O próximo passo seria enfrentar o seu pai.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Os Fuentes - Parte XIV

Cristóban e Juan Carlos trocaram um forte abraço. Dirigiram-se para o refeitório da empresa enquanto conversavam animadamente. Cristóban contou ao seu tio todos os lugares por onde passou e as experiências que teve na Cruz Vermelha.

– Eu sempre soube cada passo seu, Cristóban. Rosa sempre me manteve informado.
– Eu tenho certeza que sim, meu tio. Disse o rapaz sorrindo.

Durante o almoço, Juan Carlos descreveu a Cristóban como conseguiu saltar de um escritório de representação comercial de autopeças, para uma fábrica de autopeças para caminhões, veículos agrícolas e náuticos. É claro que ele contou com um pouco de sorte, mas foi através do seu esforço que em dez anos aquilo tudo havia se transformado.

– Dez anos!... Sabe tio, eu nem tinha me dado conta de que tanto tempo havia passado. Comentou Cristóban.
– O tempo voa quando estamos ocupados e você nos fez muita falta. Disse Juan com um certo ar de cobrança.
– Eu sei, tio. Desculpe-me a ausência prolongada. Eu achei que estando longe...
– Não, Cristóban. Os problemas não desaparecem, apenas são deixados pra depois e agora chegou o momento de você resolvê-los.

Cristóban sabia que o seu tio tinha razão. De que adiantara ficar tanto tempo longe? Esteve longe de Rosa, do seu querido irmão Ernesto, do próprio tio Juan Carlos e, principalmente, de Sofie. Tudo isso por causa do seu pai. Agora ele tentava entender como havia deixado uma única pessoa abalar tanto a sua vida a ponto de interrompê-la durante dez anos.

– Eu deixei muita coisa para trás por causa da revolta e da mágoa. Não sei se serei capaz de recuperar a minha vida de onde parei, mas preciso tentar.
– Nada disso foi em vão, Cristóban. Você adquiriu experiência e conhecimento, está apto a trabalhar em qualquer grande hospital do México. Além disso, você se tornou uma pessoa mais ponderada, menos explosiva. Você melhorou. Disse o seu tio dando um tapinha nas suas costas.
– Obrigado por me animar, mas ainda não encontrei o meu pai e nem sei o que pode acontecer. Falou o rapaz um tanto desanimado.
– Tenha calma, tudo se ajeita! Você sabe que pode contar comigo.
– Sei sim, tio Juan. E como sei... Respondeu Cristóban um pouco mais aliviado.

Passaram a tarde toda juntos, conversando sobre inúmeras coisas. Cristóban conheceu toda a planta da fábrica e os muitos países pra onde seu tio exportava as peças ali produzidas. No final da tarde resolveu ir embora. Despediu-se do tio com um longo abraço e retornou para o carro. Cristóban ainda não se sentia preparado para encontrar o pai, então ligou para Rosa e avisou que daria um jeito de ficar em outro lugar – a sua mala já estava no carro. Ligou para Sofie:

– Oi Sofie. Posso pedir um favor? Será que aquele sofá-cama ainda está desocupado? E um imenso sorriso surgiu no seu rosto assim que obteve a resposta.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Os Fuentes - Parte XIII

Chegando ao endereço que Rosa havia lhe passado, Cristóban se deparou com um prédio de cinco andares ao lado de um conjunto de quatro grandes galpões. Estacionou o carro e dirigiu-se ao que parecia ser a recepção.

– Bom dia! Por favor, a senhorita poderia me informar em que sala fica a empresa do senhor Juan Carlos Lopez?

A recepcionista olhando para Cristóban com certa descrença, e já tendo levantado uma das sobrancelhas, retrucou:

– Senhor, todo esse complexo é a empresa do Sr. Juan Carlos Lopez.

Cristóban ficou estático por alguns segundos olhando fixamente para a recepcionista. Estava completamente sem graça.

– Ah, claro! Será que a senhorita poderia desculpar a minha ignorância? Falou Cristóban rindo, mas a recepcionista continuava olhando pra ele e agora com ar gélido. Cristóban deu uma tossidinha e falou:
– Meu nome é Cristóban Lopez Fuentes, sou sobrinho do Sr. Juan Carlos. Eu gostaria muito de falar com o meu tio. Será que ele teria tempo de me atender?
– Duvido! Disse secamente a recepcionista.
– A senhorita poderia ao menos anunciar que eu estou aqui? Disse o rapaz já um pouco impaciente com a aspereza da mulher.
– Verei o que posso fazer. Falou a recepcionista fazendo pouco caso enquanto discava algum ramal no telefone.

Cristóban sentou em um confortável sofá achando que pelo humor daquela mulher ele demoraria um bocado de tempo até conseguir falar com o seu tio. Olhou algumas fotos na parede que mostravam a construção daquelas instalações e uma porção de certificados internacionais de qualidade. Sabia que o seu tio fora representante comercial de autopeças há muito tempo, mas o que Juan Carlos fazia agora era uma incógnita para ele. “Meu tio se deu bem”, pensou ele. Nisso a recepcionista o chamou:

– A secretária do seu tio pediu que subisse. O elevador fica à direita no corredor. Chegando ao quinto andar, siga reto. A sala do Sr. Juan Carlos é a última.
– Tudo bem, obrigado. Disse Cristóban, mas mulher sequer levantou os olhos e o ignorou.

Cristóban chegou ao último andar do prédio seguiu reto por um conjunto de salas até o final. Encontrou uma sala de espera com uma senhora muito simpática: era a secretária do seu tio. Ela o recebeu com um grande sorriso e ofereceu um café.

– Quanta diferença de tratamento. Agora há pouco eu quase me arrependi de vir aqui por conta de uma moça muito mau humorada lá embaixo na recepção. Comentou o rapaz.
– Não se incomode com aquela coisa lá embaixo. O problema dela é falta de homem. Disse a secretária rindo.

Cristóban quase cuspiu o café, limitando-se a dar um sorriso meio amarelo e balançar a cabeça para concordar.

– O seu tio já vai recebê-lo, basta terminar essa reunião. Ele disse que hoje vocês almoçarão juntos. Disse a secretária sorrindo enquanto sentava à sua mesa e continuava as suas tarefas.

Cristóban terminou o cafezinho e colocou-o em cima de uma pequena mesa de centro. A porta do escritório se abriu, alguns homens saíram e logo atrás veio o seu tio que o recebeu com um grande sorriso. Juan Carlos abriu os braços e falou bem alto:

– Cristóban, há quanto tempo!...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Os Fuentes - Parte XII

Cristóban saiu da UTI e voltou para junto de Rosa. Ambos escutaram animados o Dr. Roberto falando sobre a recuperação meteórica de Ernesto. Depois de alguns minutos, ambos dirigiram-se para a saída do hospital e combinaram que voltariam no dia seguinte para uma nova visita.

Enquanto se dirigiam até o carro, Cristóban sentiu-se tentado a fazer uma pergunta para Rosa. Tinha que ser feita:

– Dinda, eu sei que talvez não seja o momento apropriado de falar sobre isso, mas quem está pagando os custos da internação do Ernesto? A senhora mesmo havia dito que meu pai está falido.
– É verdade, seu pai agora não poderia arcar com estas despesas. Seu tio, Juan Carlos, está ajudando.
– Mas desde quando o irmão de mamãe tem dinheiro pra bancar essas coisas?
– Desde quando ele acertou nos negócios. Comentou Rosa.
– Preciso agradecê-lo. Lembro que só conseguíamos vê-lo escondidos do meu pai. Meu tio tem um coração de ouro, como a minha mãe tinha.
– Ele gosta muito de você e do Ernesto, sempre gostou, e sofreu demais com a morte de sua mãe porque sabia que isso os afastaria dele. Disse Rosa enquanto segurava a mão de Cristóban.
– Farei isso, Dinda. Deixarei a senhora em casa e irei ao encontro do meu tio Juan.

E foram ambos até a residência dos Fuentes conversando animadamente durante o percurso. Percebia-se que estavam mais aliviados com a condição de Ernesto e tudo indicava que ele ficaria bem. Lembraram das traquinagens que os dois irmãos faziam quando eram crianças, subindo em árvores, escalando janelas, correndo pelo imenso gramado e jogando futebol. Maria Lucia e Rosa proporcionaram uma infância feliz para os meninos e a governanta se orgulhava disso. “Se os dois seguiram caminhos diferentes, foi a escolha que cada um fez”, pensava Rosa serenamente. Ela sabia que havia feito tudo o que podia por eles.

Depois de deixar a sua Dinda em casa e pegar o endereço do escritório do seu tio Juan Carlos, Cristóban seguiu ao seu encontro para revê-lo e agradece-lo por toda a ajuda que estava oferecendo; o endereço no papel era o de um distrito industrial nos arredores da cidade do México. O dia estava ensolarado e a temperatura agradabilíssima. Cristóban colocou um CD do The Who no CD Player do carro, abriu todas as janelas e pegou a estrada. Naquele momento, tudo o que queria era aproveitar um pouco a viagem, que demoraria por volta de uma hora e meia, e olhar um pouco para as paisagens daquele país que há tanto tempo ele havia deixado para trás.

Sem poder evitar, pensava em Sofie e no beijo que ganhou antes de deixar o seu apartamento. Ele sonhava há tempos com aquele beijo e tinha sido exatamente tudo aquilo que imaginava: – Perfeito! Disse ele baixinho. Um sorriso estampava o seu rosto que parecia estar iluminado. Cristóban não fazia idéia do que era aquilo que ele estava sentindo, mas era bom demais!

O seu telefone celular deu um toque curto, ele o abriu e notou que havia uma mensagem de Sofie que dizia: “Eu já sinto a sua falta. Quando terei outro beijo seu?”. Cristóban não conseguia conter a sua alegria, abaixou a capota do carro, aumentou o volume da música, ergueu os dois braços ao ar e deu um grito: – Uhuuuuuuuuuuu!

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Os Fuentes - Parte XI

Cristóban saiu do prédio sentindo-se um adolescente e cultivava uma alegria que nem sabia definir. Foi até a casa de seu pai para buscar Rosa a fim de irem ao hospital encontrar com o Dr. Roberto. No meio do caminho ele cedeu à curiosidade e perguntou pelo pai:

– Dinda, como meu pai está?
– Está melhor, filho. O Dr. Roberto passou hoje de manhã em casa para medicá-lo e ele até aceitou tomar o café da manhã.
– Isso é bom! Sinal de que ele está começando a reagir.
– Espero que sim... Disse Rosa um tanto reticente enquanto olhava o movimento pela janela do automóvel.

Chegando ao hospital, Dr. Roberto recebeu os dois com uma fisionomia muito leve e era possível até notar um sorriso.

– Olá Cristóban e Rosa! Tenho boas notícias: o Ernesto está reagindo muito bem ao tratamento. A melhora no quadro dele de ontem pra hoje é impressionante, não imaginávamos tal reação nem mesmo em nossas melhores previsões.
– Graças a Deus e a minha querida Virgem de Guadalupe! Eu rezei tanto por ele... Disse Rosa entre lágrimas e muito mais aliviada.
– Isso é ótimo, doutor! Disse Cristóban eufórico. Quando o senhor acha que ele recobrará a consciência?
– Ainda é cedo para falar disso, mas com a recuperação dele eu não ficaria surpreso se fosse em breve; estamos diminuindo os sedativos com essa finalidade. A parte boa é que vocês podem vê-lo agora mesmo, mas um de cada vez.

Rosa, a pedido de Cristóban, foi primeiro. Ele sabia da agonia da governanta, do amor que ela tinha pelos dois, e considerou que aquilo seria o mais correto a fazer. Foi uma visita de 10 minutos e, ao término, era possível notar a calma nas feições de Rosa. Para Cristóban aquilo foi um sinal positivo de que o irmão estava bem.

Cristóban foi até o leito da UTI onde Ernesto estava e por um momento se deixou distrair e pensou quem estaria pagando aquela internação já que o seu pai havia falido. Considerou que no momento aquilo era irrelevante e foi para perto do irmão que ainda estava sedado. Sentou-se ao lado do leito e segurou a mão de Ernesto enquanto falava:

– Oi meu irmão. Sou eu, Cristóban. Eu voltei pra casa e agora cuidarei das coisas e também cuidarei de você. Desculpe a minha ausência, eu tentei fugir de uma situação que eu deveria ter enfrentado e acabei protelando as coisas. O pior mesmo foi ter ficado longe de você, mas prometo que não acontecerá novamente.

Comovido e feliz por estar ao lado do irmão, Cristóban deixou que rolassem algumas lágrimas. Não eram lágrimas de tristeza, mas de alegria por reencontrar Ernesto, mesmo que fosse naquela incômoda situação.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Os Fuentes - Parte X

Na manhã seguinte Cristóban acordou com a luz do sol entrando por uma fresta deixada pela cortina da sala. Sentia-se melhor, descansado e pronto pra enfrentar as adversidades que se colocavam em seu caminho. Mesmo aquele sofá-cama sendo desconfortável, era bem melhor do que as redes e camas de campanha em que estava acostumado a dormir durante as incursões da Cruz Vermelha em território africano.

Sofie já havia levantado e tomado banho. Estava de folga já que havia feito um plantão de 24 horas no dia anterior em um hospital na periferia da cidade do México. Foi para a cozinha preparar o café da manhã.

– Cristóban, eu deixei uma toalha separada no banheiro para você se lavar. Gritou ela da cozinha.
– Ah, obrigado! Disse o rapaz ainda sonolento enquanto se encaminhava ao banheiro.

Já tomando o café, Cristóban falava à amiga que não sabia o que faria. Estava afastado há muitos anos e não tinha idéia de qual seria a reação de seu pai.

– Sofie, eu não queria que o nosso reencontro fosse em meio a tantos problemas. Eu pensava em voltar, mas não nessa situação. Disse o rapaz um tanto cabisbaixo.
– Eu não quero brincar com as tragédias que você está vivendo, mas toda essa situação se parece com essas nossas novelas horríveis cheias de desgraças... Só falta o chili, o sombrero e alguns mariachis. E riu espontaneamente.
– Nem as tortillas faltam porque estamos comendo uma agora mesmo. Brincou Cristóban rindo da própria sorte.
– É melhor rir do que chorar. Disse Sofie enquanto segurava a mão de Cristóban por cima da mesa e mirava os seus olhos.
– Errrr... É verdade. Disse o jovem completamente sem graça e puxando de leve a mão.

Terminaram o café e o rapaz decidiu ligar para Rosa a fim de ter alguma nova notícia de seu irmão hospitalizado e de seu pai:

– Bom dia, Dinda! A senhora teve alguma notícia do hospital? E o meu pai? E depois de um breve silêncio: – Tudo bem, Dinda; eu vou buscá-la agora mesmo para encontrarmos com o Dr. Roberto.
– Está tudo bem, Cristóban? Perguntou Sofie preocupada.
– Até que enfim uma boa notícia: o quadro do Ernesto melhorou muito de ontem pra hoje e o Dr. Roberto começou a diminuir a medicação. Ele deve acordar em poucas horas ou em alguns dias.
– Que ótima notícia! Disse a jovem efusivamente.
– De fato, é uma notícia excelente! Disse enquanto colocava o telefone sobre uma mesinha.

Cristóban arrumou as suas coisas e preparava-se para deixar o apartamento da amiga, e já com a porta aberta despediu-se dela:

– Sofie, eu nem sei como agradecer o que você fez por mim. Você não me deu só um abrigo, mas também cedeu o seu ombro. Acredite, eu estava mesmo precisando.
– Foi um prazer receber você aqui, Cristóban. Eu só gostaria que isso tivesse acontecido há mais tempo. E pela primeira vez a moça ficou ruborizada.
– Você sempre foi especial pra mim, Sofie... E vai continuar sendo.

Cristóban aproximou-se para dar um abraço na amiga e quando se voltou para beijar o seu rosto, Sofie o virou rapidamente e alcançou a sua boca dando nele um beijo apaixonado que havia esperado muitos anos para acontecer. Foi um momento mágico para os dois que ansiavam por aquilo ardentemente.

O Beijo cessou; eles se entreolharam e riram inocentemente, um riso meio nervoso e também aliviado. Cristóban afagou o rosto de Sofie e despediu-se com um olhar de ternura e um sorriso no rosto. Agora ele realmente se sentia preparado para qualquer coisa.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Os Fuentes - Parte IX

Cristóban abriu um sofá-cama que ficava na sala, dispôs algumas almofadas e deitou. Apesar do cansaço, era difícil dormir com tantos problemas rondando a sua cabeça e ficava pensando como iria resolver aquilo tudo. Ele ainda ficou por uns 40 minutos rolando de um lado ao outro sem conseguir pregar os olhos; levantou-se e foi até o quarto de Sofie onde pegou um travesseiro para em seguido voltar para a sala. Quando ele colocou a cabeça no travesseiro, sentiu o cheiro dela e sem perceber um imenso sorriso apareceu em seu rosto já tão tenso. Aquilo foi o suficiente para pegar no sono e dormir profundamente.

Algumas horas mais tarde – e tendo dormido pesadamente – Cristóban sentiu uma mão muito suave afagando o seu cabelo seguido de um beijo muito quente em sua testa. Ele abriu os olhos e viu Sofie sorrindo docemente. Parecia a visão de um anjo... E que anjo! Um longo cabelo castanho cacheado, a pele clara e os olhos cor de mel mais lindos que havia visto.

– Acorda dorminhoco! Disse Sofie a Cristóban enquanto jogava uma almofada em sua cabeça.
– Você nunca me dá um tempo, né?! Vive sempre pegando no pé. Disse o rapaz ainda sonolento.
– A graça de estar com você é pegar no seu pé. Disse a moça rindo para logo em seguida completar: – O que foi que o trouxe para cá depois de tantos anos?
– É uma longa história, Sofie. Antes eu gostaria de tomar um banho.

Depois de tomar banho, Cristóban foi até a cozinha onde Sofie preparava o jantar. Sentou-se na mesa e explicou à amiga as razões que o haviam levado de volta ao México. Contou do estado de saúde e financeiro do pai e também do vício do irmão e a sua hospitalização, ele só não conseguia dizer que há algum tempo planejava o seu retorno por causa de Sofie porque não tinha coragem de fazê-lo.

– Sinto muito saber de todas essas coisas, Cristóban. Parece que você tem um problema e tanto nas mãos.
– Tenho sim, Sofie; e eu nem sei por onde começar. Mas fale-me de você... Anda namorando muito? Perguntou ele um pouco sem graça e um tanto curioso.

Percebendo a vergonha na voz do amigo, Sofie retrucou rapidamente:

– Eu estou sozinha. E por que essa pergunta, você está interessado? E deu um sorrisinho maroto.
– E... e... eu? Interessado? Não! É apenas uma pergunta, uma curiosidade... Coisas que um amigo costuma perguntar. E ficou imediatamente ruborizado com o questionamento da amiga.
– Tudo bem, Cristóban... Não precisa ficar vermelho. E riu alegremente enquanto terminava de preparar um macarrão ao molho branco. Cristóban, por outro lado, parecia olhar ao redor procurando um buraco onde pudesse enfiar a cabeça.